“Sim, Fui Eu Que Pedi o Divórcio. Quero Viver a Minha Própria Vida”, Disse Dona Lurdes à Filha Mais Velha
— Sim, fui eu que pedi o divórcio. Quero viver a minha própria vida — disse eu, com a voz a tremer, fitando a minha filha mais velha, Mariana, nos olhos. Ela ficou imóvel, como se o tempo tivesse parado ali mesmo na cozinha, entre o cheiro do café acabado de fazer e os pratos por lavar que António deixara outra vez na pia.
— Mãe… estás a falar a sério? — perguntou Mariana, baixinho, como se tivesse medo que o pai ouvisse do quarto ao lado.
Senti o peito apertado. Nunca imaginei ter esta conversa. Durante quarenta anos, fui dona de casa, mãe dedicada, esposa presente. António sempre foi um homem trabalhador, sim, mas nunca soube o que era passar um pano no chão ou sequer fazer uma sopa. Eu fazia tudo: limpava, cozinhava, tratava dos miúdos, das roupas, das contas da casa. No início não me importava — era assim que as mulheres da minha geração viviam. Mas agora… agora já não consigo.
— Estou cansada, Mariana. Cansada de ser invisível nesta casa. O teu pai chega, senta-se à mesa, come e levanta-se sem sequer olhar para trás. Nunca me perguntou se preciso de ajuda. Nunca me perguntou se estou bem — desabafei, sentindo as lágrimas a quererem cair.
Mariana olhou para mim com uma mistura de pena e incredulidade.
— Mas mãe… agora? Depois de tudo? E o pai? E o Tiago?
Tiago é o meu filho mais novo. Tem trinta e dois anos e ainda mora connosco. Trabalha numa loja de informática e passa os dias fechado no quarto, entre computadores e jogos online. Também ele nunca mexeu uma palha em casa. Sempre achei que era culpa minha, que devia ter sido mais firme quando era pequeno. Mas a verdade é que sempre fiz tudo por eles — por amor, por hábito, por medo de ser menos mãe.
— O teu pai nunca vai mudar — continuei. — E eu já não tenho forças para continuar assim. Quero viver o tempo que me resta em paz, Mariana. Quero ir ao cinema sozinha, quero viajar até ao Gerês com as amigas do grupo de costura, quero acordar sem ter de pensar no jantar do dia seguinte.
Mariana ficou em silêncio. Ouvia-se apenas o tic-tac do relógio da parede e o som abafado da televisão na sala.
— Não podes simplesmente… tentar outra vez? Falar com ele? — insistiu ela.
Ri-me amargamente.
— Já tentei tudo. Já chorei, já gritei, já pedi ajuda. Ele diz sempre: “Isso são coisas de mulheres.” Ou então: “Já trabalhei o dia todo.” Como se eu não trabalhasse também! Só que o meu trabalho nunca teve salário nem férias nem reconhecimento.
Mariana suspirou e passou as mãos pelo cabelo.
— E se te arrependeres?
— Prefiro arrepender-me de tentar ser feliz do que passar mais vinte anos a arrepender-me de não ter feito nada.
Nesse momento ouvi passos pesados no corredor. António apareceu à porta da cozinha com a sua expressão habitual de enfado.
— Que conversa é essa? — perguntou desconfiado.
Mariana olhou para mim como quem pede desculpa por não conseguir proteger-me.
— Estou a dizer à Mariana que quero separar-me — disse-lhe com firmeza.
Ele bufou.
— Separar-te? Agora? Com esta idade? Vais para onde? Vais viver do quê?
Senti-me pequena por um instante. Sempre temi esta pergunta. Não tenho reformas grandes, nunca trabalhei fora de casa. Mas tenho algum dinheiro posto de parte — herança da minha mãe — e amigas dispostas a ajudar-me.
— Vou viver para mim mesma — respondi baixinho, mas convicta.
António riu-se com desdém.
— Isso são ideias que te metem na cabeça lá no grupo das velhas do centro de dia! Achas que alguém vai querer saber de ti?
As palavras dele magoaram-me mais do que queria admitir. Mas olhei para Mariana e vi nos olhos dela algo diferente: talvez respeito, talvez medo.
— Pai… — começou ela — talvez devesses ouvir a mãe. Ela está mesmo cansada.
António virou-lhe as costas e saiu da cozinha a resmungar: “Isto são modernices…”.
Ficámos ali as duas em silêncio durante minutos intermináveis. Senti-me exausta, mas também estranhamente leve. Como se tivesse largado um peso enorme dos ombros.
Naquela noite dormi mal. Ouvi António a ressonar na sala — foi dormir para o sofá — e Tiago a falar sozinho no quarto enquanto jogava online até tarde. Pensei em tudo o que ia perder: os jantares em família (mesmo que fossem silenciosos), os natais juntos (mesmo que eu fizesse tudo sozinha), os domingos em que íamos ao café da vila tomar um galão e comer um pastel de nata.
Mas pensei também em tudo o que podia ganhar: liberdade, tempo para mim, dignidade.
No dia seguinte acordei cedo e fui ao mercado comprar flores frescas para mim mesma. Senti olhares curiosos das vizinhas quando passei pelo largo da igreja. Algumas cochichavam: “A Lurdes vai separar-se do António…”. Outras sorriam-me com cumplicidade.
À tarde liguei à minha irmã Rosa.
— Lurdes! Então? Está tudo bem?
— Vou divorciar-me do António — disse-lhe sem rodeios.
Ela ficou em silêncio uns segundos antes de responder:
— Coragem não te falta… Mas tens a certeza?
— Tenho. Não aguento mais esta solidão acompanhada.
Rosa suspirou do outro lado da linha.
— Se precisares de vir cá para casa uns tempos… sabes que tens sempre um quarto aqui.
Agradeci-lhe comovida. Senti-me menos sozinha naquele momento.
Os dias seguintes foram um turbilhão: reuniões com advogados (um amigo do meu cunhado ajudou-me), discussões acesas com António (“Vais destruir esta família!”), telefonemas preocupados dos filhos (“Mãe, pensa bem!”), mensagens das amigas (“Força, Lurdes!”).
Tiago recusou-se a falar comigo durante dias. Mariana vinha cá todos os fins-de-semana tentar convencer-me a mudar de ideias.
Uma noite sentei-me com Tiago na sala.
— Filho… preciso que entendas uma coisa: eu amo-te muito, mas não posso continuar a viver só para os outros. Preciso de cuidar de mim agora.
Ele não respondeu logo. Olhou para mim com olhos vermelhos de quem não dorme bem há dias.
— E eu? Onde é que fico nisto tudo?
— Ficas onde sempre estiveste: no meu coração. Mas está na altura de começares também a cuidar da tua vida.
Ele levantou-se abruptamente e saiu porta fora sem dizer palavra.
Chorei muito nessa noite. Senti-me egoísta e má mãe. Mas depois lembrei-me das palavras da minha mãe antes de morrer: “Lurdes, nunca deixes ninguém apagar quem tu és.”
O divórcio foi difícil e doloroso. António recusou-se a sair de casa durante meses; Tiago acabou por arranjar um quarto alugado perto do trabalho; Mariana demorou tempo a aceitar mas acabou por perceber que eu precisava disto para sobreviver.
Hoje vivo num pequeno apartamento no centro da vila. Tenho menos espaço mas mais paz. Faço parte do grupo de leitura da biblioteca municipal; viajo com as amigas quando posso; aprendi finalmente a nadar na piscina municipal; às vezes vou ao cinema sozinha e sinto-me dona do meu tempo pela primeira vez na vida.
António raramente me fala — ainda está magoado — mas já não me pesa tanto no peito essa mágoa antiga. Tiago visita-me aos domingos; Mariana liga-me todos os dias para saber como estou.
Às vezes olho para trás e pergunto-me: porque é que esperei tanto tempo? Quantas mulheres continuam presas ao medo e à solidão só porque acham que já é tarde demais para mudar?
E vocês? O que fariam se tivessem uma segunda oportunidade para serem felizes?