Nunca Mais: O Dia em que Fiquei a Tomar Conta do Meu Neto

— Mãe, por favor, só hoje. O Miguel está com febre e não pode ir à creche. Eu não posso faltar ao trabalho outra vez, senão perco o prémio de assiduidade. — suplicou a minha filha, Joana, com aquela voz trémula que só usa quando está mesmo desesperada.

Olhei para o Miguel, enroscado no sofá, as bochechas vermelhas e os olhos brilhantes de febre. O termómetro ainda marcava 38,7ºC. Suspirei fundo. Não era a primeira vez que me pediam para ficar com ele, mas hoje sentia-me especialmente cansada. O meu marido, António, já tinha ido para o café jogar à sueca com os amigos e eu sabia que ia passar o dia sozinha com o pequeno.

— E a Mariana? — perguntei, já sabendo a resposta. — Ela não tem aulas só de manhã?

Joana revirou os olhos. — Mãe, a Mariana tem exames e depois vai ao salão arranjar as unhas. Não lhe posso pedir mais nada, ela já está cheia de stress.

A Mariana, minha neta mais velha, sempre foi assim: ocupada demais para ajudar, mas pronta para pedir boleia ou dinheiro para sair à noite. Senti uma pontada de amargura, mas calei-me. Afinal, era o meu neto doente ali à minha frente.

— Está bem — disse, resignada. — Mas só hoje.

Joana beijou-me apressadamente na testa e saiu porta fora antes que eu mudasse de ideias. Fiquei sozinha com o Miguel e um silêncio pesado caiu sobre a casa. O relógio marcava 8h15 da manhã.

O Miguel começou logo a chorar porque queria ver desenhos animados no tablet da irmã. Procurei o aparelho por toda a casa, mas claro que a Mariana o tinha levado consigo. Tentei distraí-lo com livros de pintar, mas ele atirou tudo para o chão.

— Quero a mamã! — gritava ele, entre soluços e ranho.

Sentei-me ao lado dele e abracei-o. O calor do seu corpo febril fez-me lembrar dos dias em que Joana era pequena e ficava doente. Nessa altura, eu também estava sozinha, porque o António trabalhava horas sem fim nas obras. Lembrei-me das noites em claro, das lágrimas escondidas e da força que não sabia que tinha.

O telefone tocou. Era o António.

— Então, Maria? Como está o miúdo?

— Está pior — respondi, tentando não chorar. — Não come nada e só quer a mãe.

— Aguenta-te aí. Eu volto ao almoço.

Desliguei e olhei para o Miguel. Tinha adormecido no sofá, mas respirava com dificuldade. Fui buscar um pano húmido e limpei-lhe a testa. Senti-me impotente. Porque é que tudo caía sempre em cima de mim?

Às 10h30, a campainha tocou. Era a vizinha, Dona Emília.

— Ouvi o menino a chorar. Precisa de alguma coisa?

Sorri-lhe agradecida e aceitei o caldo de galinha que ela trouxe num tupperware.

— Os filhos nunca crescem para as mães — disse ela, com um olhar compreensivo.

Fechei a porta e sentei-me à mesa da cozinha. O Miguel acordou pouco depois e recusei-se a comer qualquer coisa.

— Quero a mamã! Quero a mamã!

A minha paciência começou a esgotar-se. Liguei à Joana:

— Ele não come nada! Está cada vez mais quente!

— Mãe, não posso sair agora! Dá-lhe Ben-u-ron e tenta distraí-lo!

Desliguei furiosa. Senti-me usada. Sempre fui aquela que resolve tudo na família: quando o António teve o enfarte fui eu que tratei de tudo; quando a Mariana ficou grávida aos 17 fui eu que segurei as pontas; quando Joana se separou do pai do Miguel fui eu que lhe dei casa e colo.

O relógio marcava meio-dia quando ouvi um barulho vindo do quarto da Mariana. Fui espreitar e encontrei o gato dela a arranhar as cortinas novas.

— Sai daí! — gritei, mas ele fugiu para debaixo da cama.

Voltei à sala e encontrei o Miguel a vomitar no tapete novo.

Senti uma raiva surda crescer dentro de mim. Porque é que ninguém me ajuda? Porque é que sou sempre eu?

Limpei tudo em silêncio, com lágrimas nos olhos. O cheiro a vómito misturava-se com o cheiro do caldo da Dona Emília e senti-me enjoada.

Às 13h30, finalmente o António chegou.

— Então? — perguntou ele, olhando para o neto pálido no sofá.

— Está pior — respondi secamente.

Ele sentou-se ao meu lado e ficou a ver televisão como se nada fosse.

Às 15h00, Joana ligou:

— Mãe, vou chegar tarde. O chefe pediu-me para ficar até às seis.

Olhei para o António, mas ele encolheu os ombros.

O Miguel voltou a vomitar. Liguei para a Saúde 24 e disseram-me para vigiar os sinais de desidratação.

Senti-me sozinha como nunca antes na vida. Lembrei-me dos meus pais, já falecidos, e de como eles sempre diziam: “Família é tudo.” Mas será mesmo?

Às 17h00, Mariana chegou finalmente a casa.

— Ai avó, estou exausta! Nem imagina o dia que tive! — disse ela, atirando-se para o sofá ao lado do irmão doente.

Olhei para ela incrédula.

— Mariana, podias ter ficado com o teu irmão nem que fosse uma hora! Preciso de descansar!

Ela revirou os olhos:

— Avó, tenho exame amanhã! Não posso estar sempre a ajudar!

Senti uma vontade imensa de gritar. Em vez disso, fui fechar-me na casa de banho e chorei baixinho para ninguém ouvir.

Quando finalmente Joana chegou a casa eram quase sete da noite. Pegou no Miguel ao colo e agradeceu-me apressadamente antes de sair porta fora outra vez.

Fiquei sozinha na cozinha escura, rodeada de brinquedos espalhados pelo chão e um silêncio pesado no ar. Senti-me vazia.

No dia seguinte acordei com dores no corpo todo e uma tristeza difícil de explicar. O António saiu cedo sem dizer nada; Mariana nem apareceu à cozinha; Joana mandou uma mensagem rápida: “Obrigada mãe! Salvaste-me outra vez!”

Olhei para o espelho e vi uma mulher cansada demais para continuar a ser o pilar da família sem nunca receber nada em troca.

Pergunto-me: até quando é que as mães e as avós têm de carregar tudo sozinhas? Será isto amor ou apenas costume? E vocês? Já sentiram este peso invisível?