Se não vais sentar-te à mesa com a minha família, ao menos cozinha e põe a mesa, depois vai-te embora!
— Mariana, não podes continuar assim. — A voz de Rui ecoa pela cozinha, tensa, quase a tremer. — Se não vais sentar-te à mesa com a minha família, ao menos cozinha e põe a mesa, depois vai-te embora!
Fico parada, com as mãos ainda molhadas do detergente, o cheiro a cebola a entranhar-se nos dedos. Oiço o relógio da parede, cada tic-tac a marcar o tempo que me resta antes de explodir. Oiço também o eco das palavras da mãe dele, há seis meses, naquela noite em que tudo mudou.
“Não sei o que o meu filho viu em ti, Mariana. As mulheres da nossa família sempre foram de outra fibra.”
Na altura, sorri, engoli em seco, e continuei a servir o arroz de pato, como se nada fosse. Mas por dentro, uma parte de mim morreu. Desde então, cada convite para jantar com a família do Rui é uma faca a girar na ferida. Ele sabe. Mas insiste.
— Rui, não percebes? — A minha voz sai baixa, quase um sussurro. — Não é só cozinhar ou pôr a mesa. É sentar-me ali, a ouvir aquelas bocas, aqueles olhares de lado…
Ele interrompe-me, impaciente:
— Mariana, já chega! A minha mãe é difícil, sim, mas é a minha família. Não podes simplesmente fingir que não existem!
— E eu? — pergunto, sentindo as lágrimas a ameaçar. — Eu existo? Ou só sirvo para cozinhar e sorrir?
Ele suspira, passa as mãos pelo cabelo, olha para o chão. Oiço os passos da nossa filha, Sofia, a brincar no quarto. Oiço também o silêncio pesado que se instala entre nós.
Lembro-me do primeiro jantar em casa dos pais do Rui. A mesa comprida, o cheiro a bacalhau com natas, as conversas cruzadas. A mãe dele a perguntar-me, com um sorriso falso, se eu sabia fazer arroz de polvo “como deve ser”. O pai dele a falar alto, a rir-se das minhas opiniões sobre política, como se eu fosse uma criança. E o Rui, sempre a tentar apaziguar, a mudar de assunto, a fingir que não via.
Depois daquela noite fatídica, fechei-me. Disse ao Rui que não queria mais. Ele prometeu que ia falar com a mãe, que as coisas iam mudar. Mas nada mudou. Só eu mudei. Fiquei mais fria, mais distante. Comecei a inventar desculpas para não ir aos jantares. Uma dor de cabeça, Sofia com febre, trabalho atrasado. Rui percebeu, mas nunca me confrontou. Até hoje.
— Mariana, não posso continuar a ser o filho que leva sempre desculpas. Eles perguntam por ti, acham que não gostas deles. — A voz dele quebra um pouco. — E eu fico no meio, a tentar agradar a todos.
— E eu? Quem tenta agradar-me a mim? — pergunto, já sem conseguir conter as lágrimas.
Ele aproxima-se, tenta tocar-me no braço, mas eu afasto-me. Sinto-me sozinha, encurralada. Penso em Sofia, que adora os avós, que não percebe porque é que a mãe nunca vai com ela. Penso em mim, na Mariana que era antes de tudo isto, mais leve, mais confiante.
— Mariana, por favor… — diz Rui, quase num sussurro. — Só quero que sejamos uma família.
— Mas a que preço, Rui? — respondo, a voz embargada. — A que preço?
Ele não responde. Fica ali, parado, a olhar para mim como se eu fosse um enigma impossível de decifrar. Eu sei que ele me ama. Mas também sei que, para ele, a família é sagrada. E para mim, a minha dignidade também é.
Naquela noite, deito-me cedo. Oiço Rui a falar ao telefone com a mãe, a tentar explicar a minha ausência. Oiço a voz dela, do outro lado, irritada, a dizer que “as mulheres de hoje não sabem o que é família”. Fecho os olhos, deixo as lágrimas correrem. Sinto-me pequena, esmagada entre dois mundos.
No dia seguinte, Rui acorda cedo, faz o pequeno-almoço para Sofia. Eu fico na cama, a ouvir os risos deles na cozinha. Sinto-me culpada, mas também aliviada. Não tenho forças para mais uma batalha.
Ao almoço, Rui senta-se à minha frente, os olhos vermelhos de cansaço.
— Mariana, não podemos continuar assim. — A voz dele é baixa, mas firme. — Ou tentas fazer parte da minha família, ou…
— Ou o quê? — pergunto, o coração a bater descompassado.
— Ou não sei se isto faz sentido. — Ele olha para mim, os olhos cheios de dor. — Não posso escolher entre ti e eles.
Fico em silêncio. Sinto o chão a fugir-me dos pés. Penso em tudo o que construímos juntos, em Sofia, nos sonhos que tivemos. Mas também penso em mim, na dor de me sentar àquela mesa, de fingir que está tudo bem.
Naquela tarde, vou buscar Sofia à escola. No caminho, ela pergunta:
— Mamã, porque é que não vais à casa da avó?
Engulo em seco, tento sorrir.
— Porque às vezes as pessoas magoam-nos, filha. E a mãe precisa de tempo para sarar.
Ela fica calada, a olhar pela janela. Sinto-me péssima. Mas não consigo mentir-lhe.
Chegamos a casa, Rui está à espera. Olha para mim, depois para Sofia. O silêncio é pesado.
— Mariana, a minha mãe convidou-nos para jantar amanhã. — A voz dele é neutra, quase fria. — Vais?
Olho para ele, depois para Sofia. Sinto o peso de todas as escolhas. Penso em tudo o que perdi, em tudo o que posso perder.
— Não sei, Rui. Preciso de pensar.
Ele abana a cabeça, frustrado. Sai da sala, bate com a porta. Sofia começa a chorar. Abraço-a, sinto-me a desmoronar.
Nessa noite, escrevo uma carta à mãe do Rui. Digo-lhe tudo o que sinto, tudo o que me magoou. Não sei se vou entregar. Mas preciso de pôr cá para fora.
No dia seguinte, Rui está mais calmo. Senta-se ao meu lado, pega-me na mão.
— Mariana, eu amo-te. Mas preciso que tentes. Só isso.
Olho para ele, vejo o homem por quem me apaixonei. Vejo também o filho, o pai, o marido dividido.
— Vou tentar, Rui. Mas preciso que estejas do meu lado. Preciso que me defendas, que me faças sentir que pertenço.
Ele acena, emocionado. Abraçamo-nos. Sofia entra na sala, sorri. Por um momento, tudo parece possível.
Naquela noite, sento-me à mesa com a família do Rui. O ambiente está tenso, mas Rui segura a minha mão debaixo da mesa. A mãe dele lança-me um olhar frio, mas não diz nada. O pai faz uma piada, Rui responde, eu sorrio. Sofia conta uma história da escola, todos riem.
No fim do jantar, a mãe do Rui aproxima-se.
— Mariana, obrigada por teres vindo.
Olho para ela, vejo nos olhos dela um pedido de paz, ou talvez apenas resignação. Não sei. Mas sinto que, por hoje, sobrevivi.
Quando chegamos a casa, Rui abraça-me.
— Obrigado, Mariana. Por tentares.
Eu sorrio, cansada, mas aliviada. Sei que não vai ser fácil. Sei que ainda há feridas por sarar. Mas, por hoje, basta.
E pergunto-me: quantas vezes teremos de engolir o orgulho para manter a paz? Até onde devemos ir para pertencer?