Entre Aurora e Vitória: No Meio do Furacão das Mães
— João, não te esqueças que amanhã preciso que vás comigo ao médico. — A voz da minha mãe, Aurora, ecoa pelo telefone como uma ordem, não um pedido.
Olho para Natália, que está sentada no sofá, com o telemóvel encostado ao ouvido. Sei que está a falar com a mãe dela, Vitória. Pela expressão cansada no rosto da minha mulher, adivinho que a conversa não está melhor do que a minha.
— Sim, mãe, eu sei. Mas amanhã é o aniversário da Natália. Tínhamos planeado sair só os dois…
— João! O médico não pode esperar. E eu também não. Tu sabes como ando aflita com estas dores nas costas. — O tom dela sobe meio tom, carregado de culpa.
Do outro lado da sala, Natália desliga o telefone e suspira. Aproxima-se de mim e encosta a cabeça no meu ombro.
— A minha mãe quer que vá lá jantar amanhã. Diz que está sozinha e que ninguém se importa com ela.
Ficamos em silêncio. O peso das duas mães paira sobre nós como uma nuvem negra. Sinto-me dividido ao meio: metade filho, metade marido, sem conseguir ser inteiro para ninguém.
Lembro-me de quando tudo começou a piorar. Foi depois do nosso casamento. Antes disso, Aurora e Vitória mal se conheciam e mantinham uma distância cordial. Mas depois… cada uma passou a exigir mais de nós. Como se o casamento tivesse sido um prémio que agora tinham de partilhar à força.
— João, não podemos continuar assim — diz Natália, baixinho. — Nunca temos tempo para nós. Sempre que tentamos fazer planos, uma delas precisa de alguma coisa.
— Eu sei… Mas se não vamos, fazem-nos sentir culpados. A minha mãe começa logo com as histórias do pai, de como ficou sozinha depois dele morrer…
— E a minha mãe faz-se de vítima porque o meu irmão foi para o estrangeiro e diz que só me tem a mim.
O telefone toca outra vez. Olho para o visor: Aurora.
— Atende — diz Natália, resignada.
— Mãe?
— João, só para te lembrar: amanhã às nove em ponto. Não te atrases! E vê lá se levas a Natália contigo. Ela faz-me falta cá em casa. — A voz dela suaviza um pouco quando fala da Natália, mas sei que é só fachada.
Desligo e olho para a minha mulher.
— O que fazemos?
Ela encolhe os ombros.
— Se calhar devíamos fugir para longe — diz ela, meio a brincar, meio a sério.
Naquela noite, deito-me ao lado dela sem conseguir dormir. Fico a pensar em como era tudo mais simples quando era só eu e a minha mãe. Depois veio Natália, e o amor cresceu tanto que pensei que nada nos podia separar. Mas agora sinto que estamos sempre em lados opostos de uma guerra fria.
No dia seguinte, acordo com uma mensagem da Vitória: “Filha, não te esqueças do jantar hoje. Fiz o teu arroz favorito.”
Natália olha para mim com olhos tristes.
— Não consigo dizer-lhe que não…
— E eu não consigo dizer à minha mãe que não vou ao médico com ela…
Acabamos por nos separar: eu vou com Aurora ao médico; Natália vai jantar com Vitória. Quando chego a casa já é tarde. Encontro Natália sentada à mesa da cozinha, com um prato de sopa frio à frente.
— Como correu? — pergunto.
Ela encolhe os ombros.
— A minha mãe passou o jantar todo a perguntar porque não vais lá mais vezes. Disse que tu não gostas dela.
Sinto um nó no estômago.
— A minha mãe disse que tu devias ir mais vezes lá a casa porque ela sente falta de ter uma filha…
O silêncio instala-se entre nós como uma parede invisível.
Os dias passam e tudo se repete: Aurora precisa de companhia para ir às compras; Vitória pede ajuda para arranjar o computador; Aurora quer companhia para ver novelas; Vitória sente-se sozinha ao domingo à tarde. Cada pedido vem sempre embrulhado em culpa: “Se não fores tu, quem vai ser?”, “Só te tenho a ti”, “Nunca me ligas”, “Já nem pareces minha filha”.
Começamos a discutir por coisas pequenas: quem vai atender o telefone primeiro; quem cede desta vez; quem inventa uma desculpa para faltar ao próximo compromisso familiar.
Uma noite, depois de mais uma discussão sobre onde passar o Natal — Aurora quer em nossa casa; Vitória quer em casa dela — perco a cabeça.
— Não aguento mais! — grito. — Estamos sempre a viver para elas! Quando é que vivemos para nós?
Natália começa a chorar.
— Eu também estou cansada… Mas são as nossas mães…
Sento-me no chão da sala, com as mãos na cabeça. Sinto-me um miúdo outra vez, incapaz de agradar a toda a gente.
No dia seguinte, decido falar com Aurora.
— Mãe, precisamos de conversar.
Ela olha para mim com desconfiança.
— O que foi agora?
— Eu e a Natália precisamos de tempo para nós. Não podemos estar sempre disponíveis…
Ela interrompe-me:
— Ah! Agora já não precisas da tua mãe? Agora que tens mulher já não contas comigo para nada?
Sinto o coração apertado.
— Não é isso… Só precisamos de espaço. Para sermos felizes juntos.
Ela cruza os braços e vira a cara.
— Faz como quiseres… Eu cá já estou habituada a ficar sozinha.
Saio dali pior do que entrei. Em casa da Vitória não corre melhor:
— Filha, então agora já não vens cá? O teu irmão foi-se embora e tu também vais desaparecer?
Natália tenta explicar mas acaba por chorar outra vez.
Os dias tornam-se pesados. Começamos a evitar atender o telefone. Passamos os fins-de-semana fechados em casa, sem vontade de sair nem de ver ninguém.
Até que um dia recebo uma mensagem do meu primo Luís:
“João, tens de pensar em ti e na Natália. As mães vão ter sempre saudades e vão sempre pedir mais do que podes dar.”
Fico a pensar nisto durante dias. Será mesmo possível encontrar equilíbrio? Ou estamos condenados a viver nesta corda bamba?
Decidimos marcar férias só para nós dois. Quando contamos às mães, ambas ficam ofendidas:
— Então vão deixar-me aqui sozinha? — diz Aurora.
— E eu? Nem sequer me convidam? — pergunta Vitória.
Mas desta vez mantemos o plano. Partimos para o Algarve sem olhar para trás. Durante uma semana voltamos a ser só João e Natália: caminhadas na praia ao pôr-do-sol, jantares demorados sem pressa nem culpa, conversas sobre sonhos antigos esquecidos no meio do caos familiar.
No regresso, as mães estão frias mas sobrevivem. Aos poucos aprendem — ou resignam-se — à nossa ausência ocasional. Nós aprendemos também: não podemos carregar o mundo às costas sem perdermos quem somos um para o outro.
Hoje olho para Natália e vejo nos olhos dela o mesmo medo e esperança dos primeiros tempos: medo de magoar quem amamos; esperança de conseguirmos ser felizes apesar disso tudo.
Pergunto-me: será possível amar sem culpa? Ou estaremos sempre presos entre as expectativas dos outros e os nossos próprios desejos? E vocês? Como fazem para encontrar esse equilíbrio impossível?