O Último Encontro: Será Que o Perdão Traz Paz?
— Não podes simplesmente aparecer agora, Miguel! — gritei, a voz embargada, enquanto segurava o telemóvel com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos. Do outro lado da linha, o silêncio dele era ensurdecedor. — Preciso ver o Tomás, Mariana. Só uma vez. — A voz dele soava cansada, quase derrotada.
Fechei os olhos e senti o peso de todas as noites em claro, de todas as mentiras descobertas, das discussões abafadas para não acordar o nosso filho. O Miguel tinha sido o meu primeiro amor, o meu marido durante dez anos, e também o homem que me traiu vezes sem conta, até eu já não conseguir distinguir a verdade da ilusão. Quando finalmente tive coragem de pedir o divórcio, prometi a mim mesma que protegeria o Tomás de tudo aquilo. Mas agora, dois anos depois, ele queria voltar — nem que fosse só para se despedir.
A minha mãe, a Dona Lurdes, nunca gostou do Miguel. “Homem que mente uma vez, mente sempre”, dizia ela, com aquela certeza teimosa das mulheres do Norte. Mas eu era teimosa também. Acreditei nele até ao fim, até ao dia em que encontrei as mensagens no telemóvel dele — nomes de mulheres que eu nunca tinha ouvido, promessas vazias e desculpas esfarrapadas. Lembro-me de ter sentido o chão fugir-me dos pés.
Agora, sentada à mesa da cozinha, com o sol de Lisboa a entrar pela janela e a iluminar as migalhas do pequeno-almoço do Tomás, sentia-me dividida entre a raiva e a compaixão. O Tomás tinha oito anos e um sorriso igual ao do pai. Perguntava por ele menos vezes do que eu esperava — talvez porque as crianças sabem mais do que dizemos.
— Mãe, posso ir brincar lá fora? — perguntou ele, interrompendo os meus pensamentos.
— Podes, mas não saias do pátio — respondi, tentando sorrir.
Enquanto ele corria para fora, voltei a ligar ao Miguel. — Amanhã às cinco. Só uma hora. E se fizeres alguma coisa que magoe o Tomás… — deixei a ameaça no ar.
— Obrigado, Mariana. Não te vou desiludir desta vez.
Desliguei antes que ele dissesse mais alguma coisa. Passei o resto do dia num estado de ansiedade crescente. Liguei à minha irmã, a Sofia, que sempre foi mais prática do que eu.
— Achas mesmo boa ideia? — perguntou ela. — O Tomás já está habituado à ausência dele. Não será pior reabrir essa ferida?
— Não sei… Mas se não deixar, será que um dia ele vai culpar-me por isso?
A Sofia suspirou. — Faz o que achares melhor para ti e para ele. Mas lembra-te: tu é que ficas cá para apanhar os cacos.
Nessa noite quase não dormi. O Tomás adormeceu cedo, depois de me pedir para lhe contar outra vez a história do cãozinho perdido que encontra o caminho para casa. Fiquei a olhar para ele enquanto dormia, com aquela paz inocente dos miúdos que ainda acreditam que tudo se resolve no final.
No dia seguinte, preparei-me como se fosse para uma batalha. Vesti uma camisa branca engomada e prendi o cabelo num coque apertado. O Tomás percebeu logo que algo estava diferente.
— Mãe, porque estás tão séria?
— O teu pai vai passar cá hoje à tarde — disse-lhe, tentando manter a voz firme.
Ele ficou calado durante uns segundos. — Ele vai ficar?
— Não sei, filho. Só vem para te ver um bocadinho.
Às cinco em ponto ouvi a campainha. O Miguel estava mais magro, com olheiras fundas e um olhar triste. Trazia um saco de papel na mão.
— Olá, Tomás — disse ele, ajoelhando-se ao nível do filho.
O Tomás ficou parado à porta, sem saber se devia abraçá-lo ou fugir. Acabou por dar-lhe um abraço tímido.
— Trouxe-te isto — disse o Miguel, tirando do saco um livro de banda desenhada e um carrinho de brincar.
Sentámo-nos todos na sala. Eu fiquei num canto, atenta a cada gesto. O Miguel tentou conversar com o Tomás sobre a escola, os amigos, o futebol. O Tomás respondeu pouco — estava desconfiado, como se temesse que tudo aquilo fosse um sonho prestes a acabar.
Depois de meia hora de conversa forçada, o Miguel olhou para mim e depois para o filho.
— Tomás… Eu sei que não tenho sido o melhor pai do mundo. Fiz muitas asneiras e falhei contigo e com a tua mãe. Mas quero que saibas que te amo muito e que nunca deixei de pensar em ti.
O Tomás olhou para mim como quem procura permissão para acreditar naquelas palavras.
— Vais voltar? — perguntou ele.
O Miguel hesitou antes de responder. — Não sei se vou conseguir voltar como antes… Mas vou tentar estar mais presente.
Vi nos olhos do meu filho uma mistura de esperança e medo. Eu própria sentia as mesmas coisas.
Quando chegou a hora de ir embora, o Miguel abraçou o Tomás com força. Depois olhou para mim com lágrimas nos olhos.
— Obrigado por me deixares vê-lo.
Fechei a porta atrás dele e senti um alívio estranho misturado com tristeza. O Tomás ficou calado durante muito tempo. À noite, quando lhe dei um beijo de boa noite, ele perguntou:
— Achas que o pai vai mesmo voltar?
Sentei-me na beira da cama dele e segurei-lhe a mão.
— Não sei, filho. Às vezes as pessoas magoam-se umas às outras sem querer… Mas isso não quer dizer que deixem de gostar umas das outras.
Ele fechou os olhos e adormeceu rapidamente. Fiquei ali sentada no escuro, a pensar em tudo o que tinha acontecido.
Será que fiz bem em deixar o Miguel despedir-se? Será que algum dia conseguiremos mesmo perdoar quem nos magoou tanto? Ou será que há feridas que nunca saram completamente?
E vocês? O que fariam no meu lugar?