O Homem que Mudava de Meias Cinco Vezes por Dia: Uma História de Amor e Obsessão

— Nicole, já lavaste as minhas meias azuis? — perguntou o Sebastião, a voz tensa, enquanto eu tentava terminar o jantar. O cheiro do refogado misturava-se com o aroma fresco do detergente que pairava na casa desde que ele começara a lavar roupa todos os dias, às vezes duas vezes por dia.

Olhei para ele, cansada. — Sebastião, lavei ontem. Estão no estendal. — O meu tom saiu mais seco do que queria, mas era impossível esconder o cansaço.

Ele suspirou, passou as mãos pelo cabelo e foi até à varanda. Vi-o, pela janela da cozinha, a verificar cada par de meias como se procurasse defeitos invisíveis. Era sempre assim. Desde que nos mudámos para este apartamento em Almada, há três anos, a obsessão dele com a limpeza foi crescendo. No início, achei até engraçado. “Que homem tão asseado!”, dizia às amigas. Agora, era um peso.

No início do namoro, tudo parecia perfeito. Conhecemo-nos numa festa de aniversário do meu primo Rui. O Sebastião era divertido, inteligente, tinha aquele sorriso tímido que me fazia derreter. Trabalhava como engenheiro informático e eu era professora primária. Rapidamente nos apaixonámos e começámos a sonhar com uma vida juntos.

Mas depois do casamento, as pequenas manias começaram a aparecer. Primeiro, era só trocar de roupa ao chegar a casa. Depois, passou a lavar as mãos de meia em meia hora. E então vieram as meias: cinco pares por dia, religiosamente.

— Não percebo porque não podes usar as mesmas meias até ao fim do dia — disse-lhe uma noite, já na cama.

Ele olhou para mim com um ar aflito. — Nicole, não consigo. Sinto-me sujo. É como se tivesse areia dentro dos sapatos o tempo todo.

Tentei compreender. Juro que tentei. Mas a rotina tornou-se insuportável. A máquina de lavar nunca parava, o cesto da roupa suja estava sempre cheio de meias enroladas, e eu sentia-me cada vez mais sozinha naquela casa cheia de regras.

A minha mãe dizia-me para ter paciência. “Os homens têm as suas manias, filha. O teu pai também não suportava ver migalhas na mesa.” Mas isto era diferente. Era uma obsessão que consumia tudo à volta.

As discussões começaram a ser frequentes. Uma noite, depois de um jantar com amigos, cheguei a casa cansada e deixei os sapatos no corredor.

— Nicole! Os sapatos! — gritou ele da sala.

— O que foi agora?

— Não podes deixar os sapatos aí! Trazes bactérias da rua!

— Sebastião, por amor de Deus! São só sapatos! — gritei de volta.

Ele ficou em silêncio, mas vi-lhe as lágrimas nos olhos quando passou por mim para ir buscar o desinfetante.

Comecei a evitar trazer amigos cá a casa. Tinha vergonha das regras absurdas: não podiam sentar-se no sofá sem uma manta por cima, tinham de descalçar-se à porta, e ninguém podia usar a casa de banho sem antes perguntar se estava “desinfetada”.

A minha irmã Marta foi das poucas que se atreveu a dizer-lhe algo.

— Sebastião, tu precisas de ajuda — disse-lhe um dia, depois de um almoço de domingo.

Ele encolheu os ombros. — Não preciso de nada. Só quero viver numa casa limpa.

Mas eu sabia que não era só isso. O Sebastião estava a perder-se dentro da própria cabeça e eu sentia-me impotente.

Uma noite acordei com ele sentado na beira da cama, a chorar baixinho.

— O que se passa? — perguntei, assustada.

— Não consigo dormir… Sinto que está tudo sujo… — murmurou.

Abracei-o com força e sugeri procurarmos ajuda juntos. Ele recusou.

Os meses passaram e o nosso casamento foi-se desfazendo aos poucos. Eu sentia falta do homem divertido com quem casei. Agora só via medo nos olhos dele — medo da sujidade, medo do mundo lá fora, medo até de mim.

Um dia cheguei a casa mais cedo e encontrei-o sentado no chão da casa de banho, rodeado de meias espalhadas pelo chão molhado.

— Sebastião… — sussurrei.

Ele olhou para mim como uma criança perdida.

— Não consigo parar… — disse ele, num fio de voz.

Sentei-me ao lado dele e chorei também. Pela primeira vez em muito tempo senti que estávamos juntos naquele sofrimento.

Foi aí que decidi: ou procurávamos ajuda ou não conseguiríamos sobreviver como casal.

Convenci-o a ir ao médico de família. Depois vieram as consultas com o psicólogo e o psiquiatra. Diagnóstico: transtorno obsessivo-compulsivo grave.

O tratamento foi duro. Houve recaídas, discussões ainda mais duras, momentos em que pensei em desistir. Mas também houve pequenas vitórias: o dia em que ele conseguiu usar as mesmas meias durante uma manhã inteira; o dia em que deixou um amigo sentar-se no sofá sem protestar; o dia em que me abraçou sem correr logo para lavar as mãos.

A família dividiu-se: uns diziam que eu devia sair dali enquanto era tempo; outros admiravam-me pela paciência e coragem. Eu própria não sabia se estava a ser forte ou apenas teimosa demais para aceitar o fim.

Hoje escrevo-vos já com algum distanciamento. O Sebastião continua em tratamento e há dias bons e maus. Aprendi a amar também as suas fragilidades, mas nunca deixei de lutar pelo meu próprio espaço e sanidade.

Às vezes pergunto-me: quantos casamentos acabam por coisas tão pequenas? Ou será que nunca são assim tão pequenas? Até onde devemos ir por amor antes de nos perdermos completamente?

E vocês? Já sentiram que uma mania ou obsessão podia destruir tudo aquilo por que lutaram?