Entre o Amor e o Medo: A Minha Escolha Mais Difícil
— Não, Luciana. Não vou casar só porque estás grávida. — As palavras do Mário ecoaram pela sala, frias como o mármore da mesa onde as mãos dele repousavam fechadas em punho.
Senti o chão fugir-me dos pés. O meu coração batia tão forte que temi que todos ouvissem. A minha mãe, sentada ao meu lado, apertou-me a mão com força, mas não disse nada. O silêncio era pesado, cortado apenas pelo som do relógio antigo na parede da sala dos pais do Mário.
A mãe dele, Dona Teresa, olhava-me com aquele ar de superioridade que sempre me fez sentir pequena. — O Mário tem razão, Luciana. Não é por um erro que se prende uma vida inteira. — A voz dela era baixa, mas cada palavra era como uma facada.
O pai do Mário, o senhor António, levantou-se devagar da cadeira. — Teresa, não sejas injusta. A Luciana não está aqui sozinha nisto. O nosso filho tem responsabilidades. — Olhou para mim com uma ternura que me fez querer chorar.
Mas o Mário desviou o olhar. — Eu não estou preparado para isto. Não quero casar só porque sim. — A voz dele tremia, mas não cedia.
Naquela noite, deitada na minha cama, ouvi a chuva bater na janela. Oiço ainda as palavras dele, repetidas na minha cabeça como um disco riscado. Senti-me sozinha como nunca antes. Tinha 24 anos, estava grávida e o homem que eu amava recusava-se a assumir-me. A minha mãe chorava baixinho no quarto ao lado. O meu pai não falava comigo desde que soube da gravidez.
No dia seguinte, fui trabalhar como se nada fosse. Os colegas olhavam-me de lado, já todos sabiam. A minha chefe, Dona Rosa, chamou-me ao gabinete.
— Luciana, tens de pensar bem no que vais fazer. Isto não é fácil. Se precisares de sair mais cedo para ir ao médico, avisa-me. — O tom dela era mais de preocupação do que de censura, mas senti-me ainda mais exposta.
À hora de almoço, sentei-me sozinha no jardim em frente ao escritório. Vi mães a empurrar carrinhos de bebé, casais de mãos dadas. Senti inveja daquela normalidade. Porque é que a minha vida tinha de ser tão difícil?
À noite, o Mário ligou-me. — Podemos falar? — A voz dele estava diferente, mais suave.
Encontrei-o no parque onde costumávamos passear. Ele estava nervoso, mexia no telemóvel sem parar.
— Eu não quero perder-te, Luciana. Mas não sei se consigo ser pai agora. — Os olhos dele estavam vermelhos.
— E achas que eu consigo ser mãe sozinha? — Perguntei, a voz embargada.
Ele não respondeu. Ficámos ali, sentados no banco frio, sem saber o que dizer.
Os dias passaram. A minha barriga começou a crescer. A minha mãe começou a tricotar casaquinhos de lã, em silêncio. O meu pai continuava sem me dirigir a palavra. Uma noite, ouvi-o discutir com a minha mãe na cozinha.
— Ela desgraçou-se! — gritava ele. — E agora? Vamos criar um neto bastardo?
— Não digas isso! — chorava a minha mãe. — Ela precisa de nós.
Eu chorava no quarto, abraçada à almofada. Sentia-me culpada por tudo. Por não ter sido mais cuidadosa, por ter acreditado no amor do Mário, por envergonhar os meus pais.
O senhor António começou a ligar-me de vez em quando. — Precisas de alguma coisa, Luciana? — perguntava ele. — Não deixes que a Teresa te faça sentir menos do que és. O meu neto vai ser bem-vindo por mim, aconteça o que acontecer.
Essas palavras eram um bálsamo, mas também me faziam sentir ainda mais a ausência do Mário. Ele vinha ver-me de vez em quando, mas nunca falava do futuro. Trazia-me chocolates, perguntava se estava tudo bem, mas evitava olhar para a minha barriga.
Um dia, a Dona Teresa apareceu em minha casa sem avisar. — Vim falar contigo, Luciana. — Entrou sem esperar convite.
— O Mário não vai casar contigo. Ele tem uma vida pela frente, não pode ficar preso por um erro. — Disse, olhando-me de cima a baixo.
— O meu filho não é um erro! — gritei, surpreendendo-me com a força da minha voz.
Ela ficou vermelha, mas não respondeu. Saiu, batendo a porta.
Naquela noite, decidi que não podia esperar mais pelo Mário. Fui ter com ele ao trabalho.
— Preciso de saber o que vais fazer. — Disse-lhe, olhando-o nos olhos.
Ele ficou calado durante muito tempo. — Eu… Eu não sei, Luciana. Tenho medo. Medo de falhar, medo de não ser bom pai, medo de te magoar ainda mais.
— E eu? Não tenho medo? — As lágrimas corriam-me pelo rosto. — Mas vou ter este filho, com ou sem ti.
Ele baixou a cabeça. — Desculpa.
Voltei para casa sozinha. A minha mãe esperava-me à porta.
— O teu pai quer falar contigo. — Disse ela, com os olhos inchados de tanto chorar.
Entrei na sala. O meu pai estava sentado, de olhar duro.
— Vais mesmo ter esse bebé? — perguntou.
Assenti, sem conseguir falar.
Ele suspirou. — Então vamos fazer isto juntos. Não te vou deixar sozinha.
Chorei nos braços dele como uma criança. Pela primeira vez em meses, senti-me amada.
Os meses passaram. O Mário afastou-se cada vez mais. O senhor António continuava a ligar-me, a perguntar pelo neto. A Dona Teresa fingia que eu não existia.
No dia em que o meu filho nasceu, estava só com a minha mãe no hospital. O meu pai chegou pouco depois, com um ramo de flores. Chorei de felicidade e de tristeza ao mesmo tempo.
O Mário apareceu horas depois, nervoso, sem saber onde pôr as mãos. Olhou para o bebé, mas não lhe pegou ao colo.
— Ele é lindo — disse, quase num sussurro.
— É teu filho — respondi.
Ele assentiu, mas saiu pouco depois.
Hoje, o meu filho tem seis meses. O Mário vê-o de vez em quando, mas nunca ficou muito tempo. O senhor António é um avô dedicado. A Dona Teresa nunca veio visitar-nos.
A minha vida não é fácil. Trabalho, cuido do meu filho, ajudo a minha mãe em casa. Mas quando olho para o meu filho a dormir, sinto que tudo valeu a pena.
Às vezes pergunto-me: teria sido diferente se eu tivesse cedido à pressão? Se tivesse desistido? Será que algum dia o Mário vai perceber o que perdeu? E vocês, o que fariam no meu lugar?