Fuga para o Porto: Entre o Amor e a Liberdade
“Rui, estou no Porto. As crianças estão com a tua mãe. Por favor, perdoa-me e tenta compreender!”
O bilhete tremia nas minhas mãos enquanto o pousava na mesa da cozinha, ao lado da chávena de café ainda quente. O relógio marcava 6h14 da manhã. O silêncio da casa era cortante, só interrompido pelo som abafado do meu choro contido. Senti-me uma criminosa, mas também uma sobrevivente. Peguei na mala – pequena, como se não quisesse dar tempo ao arrependimento – e fechei a porta devagar, como se cada clique do trinco fosse um adeus a uma parte de mim.
Enquanto o comboio deslizava pelos campos húmidos do norte, olhei pela janela e vi o meu reflexo: olhos inchados, cabelo desalinhado, uma mulher que já não se reconhecia. “Quem és tu agora, Mariana?”, sussurrei para mim mesma. Lembrei-me do Rui a ressonar no sofá depois de mais um turno no hospital, dos gritos das crianças a pedirem atenção, dos pratos por lavar, das roupas por passar. Lembrei-me de mim a desaparecer, dia após dia.
A primeira mensagem dele chegou antes de eu chegar a Gaia: “O que é isto? Onde estás? Mariana, responde!” Não respondi. O telemóvel pesava-me no bolso como um tijolo. Senti-me egoísta, mas também livre pela primeira vez em anos.
Cheguei ao Porto sem plano. Caminhei pela Rua de Santa Catarina, perdida entre turistas e vendedores ambulantes. Sentei-me num banco junto à Capela das Almas e chorei baixinho. Uma senhora idosa sentou-se ao meu lado e perguntou: “Está tudo bem, menina?” Sorri-lhe com tristeza: “Só estou cansada.” Ela apertou-me a mão: “Às vezes é preciso parar para respirar.”
Fiquei num hostel barato na Rua do Almada. O quarto cheirava a mofo e solidão. Deitei-me na cama e deixei que o cansaço me engolisse. Sonhei com os meus filhos – o Tomás a correr atrás da bola no parque, a Leonor a pedir colo. Acordei com o coração apertado de saudades e culpa.
No segundo dia, o Rui ligou dezenas de vezes. Mandou mensagens longas, curtas, furiosas, suplicantes. “Como pudeste fazer isto? As crianças perguntam por ti.” “Volta para casa.” “Precisas de ajuda?” Não respondi. Fui até à Foz e sentei-me a olhar o mar revolto. Pensei em atirar o telemóvel às ondas, mas não tive coragem.
No terceiro dia, a minha mãe ligou-me. “Mariana, o que é que se passa? O Rui está desesperado. As crianças choram por ti.” Senti-me uma traidora. “Mãe, eu precisava disto… Eu já não aguentava mais.” Ela suspirou: “Eu sei que não é fácil, filha. Mas fugir não resolve nada.”
À noite, fui jantar sozinha numa tasca perto dos Clérigos. Um casal discutia na mesa ao lado:
— Sempre achas que sou tua empregada! — gritou ela.
— Não digas disparates! — respondeu ele.
Olhei para eles e vi o reflexo do que eu era com o Rui: dois estranhos presos numa rotina sufocante.
No quarto dia, decidi responder ao Rui:
“Preciso de tempo. Não estou bem. Não é só contigo – é comigo.”
Ele respondeu quase de imediato:
“Se não voltares amanhã, vou à polícia.”
Senti medo e raiva. Liguei-lhe:
— Rui, por favor… Não compliques mais as coisas.
— Mariana, tu abandonaste os teus filhos! Achas isto normal?
— Eu não os abandonei! Estão com a tua mãe… Eu só preciso respirar!
— E eu? E eles? Achas que não precisamos de ti?
Desliguei antes que as lágrimas me traíssem.
No quinto dia, fui à Livraria Lello e perdi-me entre livros antigos. Comprei um caderno novo e comecei a escrever:
“Sou mãe, sou mulher, sou filha… Mas quem sou eu para além disso tudo?”
À noite, recebi uma mensagem da Leonor (a avó ajudou-a a escrever):
“Mamã, volta para casa. Tenho saudades tuas.”
O coração partiu-se em mil pedaços.
No sexto dia, decidi encontrar-me com o Rui num café perto da estação de São Bento. Ele chegou de cara fechada, olheiras fundas.
— Mariana… Porquê?
— Rui… Eu estava a desaparecer. Já não sabia quem era.
— E achas que eu sei quem sou? Achas que isto é fácil para mim?
— Eu sei que não… Mas eu precisava de parar antes de enlouquecer.
Ele baixou os olhos:
— E agora? Vais voltar?
— Não sei… Preciso de tempo para mim.
Ele abanou a cabeça:
— As crianças precisam de ti.
— Eu também preciso de mim.
Voltámos juntos no comboio para Lisboa. O silêncio entre nós era pesado como chumbo. Quando chegámos a casa da mãe dele para buscar as crianças, a sogra olhou-me com reprovação:
— Mariana, isto não se faz aos filhos nem ao marido.
Abracei os meus filhos com força e chorei com eles.
Nos dias seguintes, tentei retomar a rotina: preparar pequenos-almoços, levar as crianças à escola, ouvir os desabafos do Rui sobre o hospital. Mas algo tinha mudado em mim. Comecei a sair sozinha ao fim da tarde – caminhava pelo bairro sem destino certo. Inscrevi-me num curso de cerâmica na junta de freguesia. O Rui estranhou:
— Agora vais fazer panelas?
— Vou fazer qualquer coisa só para mim.
Ele encolheu os ombros:
— Desde que não voltes a fugir…
As discussões tornaram-se mais frequentes. Um dia, durante o jantar:
— Achas justo teres ido embora assim? — perguntou ele.
— Achas justo nunca me ouvires? — respondi.
As crianças olharam-nos assustadas.
Procurei ajuda numa psicóloga do centro de saúde. Falei-lhe do peso da rotina, da solidão dentro do casamento, do medo de ser má mãe por querer ser mais do que isso.
Ela disse-me:
— Mariana, cuidar de si não é egoísmo. É sobrevivência.
O Rui começou a sair mais vezes com amigos do hospital. Voltava tarde e cheirava a cerveja barata. Uma noite chegou furioso:
— Isto foi tudo culpa tua! Se tivesses ficado em casa…
— Se eu tivesse ficado calada, morria por dentro!
Ele atirou um copo contra a parede.
As crianças choraram no quarto.
Na escola chamaram-me porque o Tomás andava agressivo com os colegas. A professora disse:
— Ele sente falta de estabilidade em casa.
Senti-me ainda mais culpada.
Um sábado à tarde sentei-me com os meus filhos no jardim:
— Sabem… A mãe às vezes também fica triste e cansada. Mas isso não quer dizer que vos ame menos.
A Leonor abraçou-me:
— Eu gosto de ti assim mesmo.
O tempo foi passando e fui aprendendo a viver com as minhas escolhas – boas e más. O Rui aceitou que eu precisava do meu espaço; eu aceitei que ele também tinha mágoas antigas por resolver.
Hoje olho para trás e pergunto-me: quantas mulheres vivem caladas dentro das suas próprias casas? Quantas fogem sem nunca sair do lugar? Será possível amar os outros sem nos amarmos primeiro?
E vocês… já sentiram vontade de fugir só para se reencontrarem?