Nunca Fui Amada: Uma Vida Entre Silêncios e Gritos

— Por que é que não podes ser como a tua irmã, Mariana? — A voz da minha mãe ecoou pela cozinha, cortando o silêncio da manhã como uma faca afiada. Eu tinha doze anos e segurava uma chávena de leite com as mãos trémulas. A minha irmã, Inês, já estava pronta para sair, com o cabelo impecável e o sorriso de quem nunca ouviu um reparo. Eu, por outro lado, sentia-me sempre desalinhada, sempre errada.

Lembro-me de olhar para o chão, tentando esconder as lágrimas que ameaçavam cair. O meu pai lia o jornal, fingindo não ouvir. Era sempre assim: a minha mãe criticava, a Inês sorria com superioridade e o meu pai desaparecia atrás das notícias do mundo. Eu era a sombra naquela casa de paredes frias em Vila Nova de Gaia.

A escola era o meu refúgio e o meu tormento. Os professores elogiavam a Inês — “Que menina aplicada!” — e olhavam para mim com um misto de pena e impaciência. Nunca fui má aluna, mas nunca fui brilhante. Nunca fui nada de especial. Os colegas viam-me como a irmã da Inês, nada mais. E eu tentava, todos os dias, ser vista.

Uma vez, no Natal, fiz um desenho para a minha mãe: era ela com um sorriso largo, rodeada por mim e pela Inês. Entreguei-lhe o papel com esperança. Ela olhou, sorriu de lado e disse:

— Que engraçado… mas a Inês está mais parecida comigo do que tu.

O papel ficou esquecido na mesa, como eu tantas vezes ficava esquecida nos cantos da casa.

Os anos passaram e a distância entre mim e a minha família só aumentou. A Inês entrou para Medicina na Universidade do Porto e tornou-se o orgulho da família. Eu escolhi Letras — “Para quê? Vais ser professora? Isso não dá dinheiro!” — ouvi a minha mãe dizer vezes sem conta. O meu pai limitava-se a encolher os ombros.

Na universidade, tentei reinventar-me. Fiz amigos, apaixonei-me por Pedro, um colega de curso que me fazia rir e me ouvia como ninguém antes ouvira. Pela primeira vez, senti-me importante para alguém. Mas quando levei Pedro a casa para conhecer os meus pais, a minha mãe olhou-o de cima a baixo e perguntou:

— E tu? O que é que fazes?

Pedro respondeu com simpatia, mas eu vi nos olhos dele o desconforto. No final da noite, ele disse-me:

— A tua família é… complicada.

Eu sorri sem vontade. Complicada era pouco.

O tempo passou e Pedro afastou-se. Disse que eu era demasiado fechada, que não sabia demonstrar amor. Tentei explicar-lhe que nunca aprendi como se fazia isso. Ele não compreendeu.

Voltei à casa dos meus pais depois de terminar o curso. Não consegui emprego logo e ouvi todos os dias:

— Devias ter escolhido outra coisa. Olha para a tua irmã! Já está a trabalhar no hospital.

A Inês vinha aos fins-de-semana com histórias de vidas salvas e elogios dos colegas. Eu sentia-me cada vez mais pequena.

Um dia, durante o jantar, a discussão começou por causa de um prato partido.

— És sempre tão desastrada! — gritou a minha mãe.

— Mãe, foi sem querer… — tentei justificar-me.

— Sempre desculpas! Nunca fazes nada bem feito!

O meu pai levantou-se da mesa sem dizer palavra. A Inês olhou para mim com pena — ou talvez fosse desprezo. Senti uma raiva crescer dentro de mim.

— Porque é que nunca estás satisfeita comigo? — perguntei num fio de voz.

A minha mãe riu-se.

— Porque tu nunca te esforças o suficiente!

Levantei-me e saí de casa naquela noite. Andei pelas ruas frias do bairro até não sentir os pés. Sentei-me num banco do jardim e chorei tudo o que tinha guardado durante anos.

Nos dias seguintes, tentei evitar a família. Procurei trabalho em cafés, em livrarias, em escolas. Consegui um part-time numa papelaria. Não era o que sonhara, mas pelo menos sentia-me útil.

A solidão tornou-se minha companheira fiel. Os amigos afastaram-se com o tempo — cada um seguiu o seu caminho, fez família, teve filhos. Eu fiquei sozinha num pequeno apartamento alugado em Matosinhos. Às vezes ligava à minha mãe; outras vezes ela ligava para criticar qualquer coisa: “Já viste a tua irmã? Está cada vez melhor!” Ou então: “Quando é que arranjas alguém?” Como se fosse fácil amar ou ser amada quando nunca se aprendeu como.

Os anos passaram depressa demais. Vi a Inês casar-se numa cerimónia luxuosa na Sé do Porto. Fui madrinha de casamento porque “fica bem na fotografia” — palavras da minha mãe. No copo-de-água, sentei-me num canto enquanto todos dançavam e brindavam à felicidade da minha irmã.

Numa noite chuvosa de inverno, recebi uma chamada do hospital: o meu pai tinha tido um AVC. Corri para lá sem pensar duas vezes. Encontrei a minha mãe desfeita em lágrimas e a Inês a tentar manter-se forte.

Durante dias revezámo-nos junto à cama dele. Pela primeira vez em anos, senti que talvez fôssemos uma família — unidas pela dor e pelo medo de perder alguém.

O meu pai recuperou parcialmente, mas ficou dependente de cuidados diários. A Inês não podia faltar ao trabalho; a minha mãe estava exausta; sobrou para mim cuidar dele durante o dia.

No início foi difícil — ele mal falava comigo — mas aos poucos começámos a conversar sobre tudo e nada: futebol, livros antigos, as ruas do Porto quando ele era jovem. Um dia perguntou-me:

— Achas que falhei contigo?

Fiquei sem resposta. Quis dizer-lhe tudo: que me senti invisível toda a vida; que só queria ter sido amada como a Inês foi; que ainda hoje procurava aprovação em cada gesto.

Mas limitei-me a sorrir e segurar-lhe a mão.

O tempo passou devagar naquele apartamento abafado pelo cheiro dos remédios e das sopas mornas. A minha mãe vinha visitar-nos todos os dias; criticava tudo: “A sopa está sem sal”, “O teu pai precisa de mais atenção”, “A tua irmã não pode fazer tudo sozinha”.

Um dia perdi a paciência:

— Mãe, eu faço tudo o que posso! Porque é que nunca chega?

Ela olhou-me como se eu fosse uma criança birrenta:

— Porque tu nunca foste suficiente! Nunca foste como a tua irmã!

Saí para a rua sem casaco, sentindo o frio cortar-me a pele. Sentei-me no passeio e chorei baixinho para ninguém ouvir.

O meu pai morreu meses depois. No funeral, ouvi vizinhos dizerem: “A Inês sempre foi tão dedicada…” Ninguém falou de mim.

Depois disso afastei-me ainda mais da família. A Inês tentou aproximar-se algumas vezes:

— Mariana, devíamos sair mais… Somos irmãs!

Mas eu já não sabia como ser irmã dela. Não sabia como ser filha da minha mãe. Não sabia sequer quem era eu sem aquela busca constante por aprovação.

Hoje vivo sozinha num T1 pequeno perto do mar. Trabalho numa biblioteca municipal onde passo os dias entre livros e silêncios confortáveis. Às vezes vejo famílias felizes na praia e pergunto-me se algum dia saberei amar alguém verdadeiramente.

Será possível aprender a amar quando nunca se foi amado? Ou estamos condenados a repetir os silêncios e os gritos da nossa infância?