Entre Duas Mães: O Peso de Escolher

— Mariana, não podes fazer isto comigo! — A voz da minha mãe ecoava pela cozinha, trémula, quase a quebrar-se. O cheiro do café queimado misturava-se com o cheiro acre da tensão. Eu estava de costas para ela, as mãos agarradas à bancada, a tentar controlar o tremor dos dedos.

— Mãe, por favor, não compliques… — respondi, mas a minha voz saiu mais fraca do que queria. — A mãe do Rui está mesmo mal. Não tem mais ninguém.

Ela aproximou-se, os passos pesados no soalho antigo. — E eu? Eu não conto? Achas que ela te vai agradecer? Achas que ela alguma vez gostou verdadeiramente de ti?

Fiquei em silêncio. O Rui estava no hospital com a mãe dele, e eu sentia-me dividida ao meio. A minha mãe sempre foi o meu porto seguro, mas nos últimos meses, desde que o meu sogro morreu e a minha sogra ficou acamada, tudo mudou. O Rui precisava de mim. A sogra precisava de mim. E a minha mãe… também.

Lembro-me do primeiro dia em que fui à casa da sogra para lhe dar banho. Ela olhou-me com aqueles olhos frios, quase de desconfiança. — Não precisas de fazer isto por pena — disse ela, a voz rouca. — Eu sempre me arranjei sozinha.

— Não é pena, Dona Teresa. É família.

Ela não respondeu. Mas nesse dia, quando lhe penteei o cabelo, vi-lhe uma lágrima a escorrer pelo rosto.

A minha mãe nunca gostou da Teresa. Dizia que ela era altiva, que nunca me aceitou verdadeiramente como nora. E talvez fosse verdade. Mas agora, acamada e frágil, era impossível não sentir compaixão.

As semanas passaram e eu sentia-me cada vez mais esgotada. Trabalhava durante o dia, corria para casa da sogra ao fim da tarde e depois ainda tentava passar pela casa da minha mãe para lhe levar pão ou ver se precisava de alguma coisa. Mas ela estava cada vez mais fria comigo.

— Já não tens tempo para mim — dizia ela ao telefone, a voz magoada. — Parece que agora só existes para aquela família.

O Rui tentava ajudar, mas também ele estava perdido na dor de ver a mãe definhar.

Uma noite, depois de dar banho à Teresa e lhe preparar o chá, sentei-me na varanda dela e chorei baixinho. Senti uma mão trémula no meu ombro. Era ela.

— Mariana… desculpa se nunca fui fácil contigo. Eu… — fez uma pausa longa, como se as palavras lhe custassem a sair — …tenho medo de morrer sozinha.

Abracei-a. Pela primeira vez senti que éramos mesmo família.

Mas em casa da minha mãe o ambiente era cada vez mais pesado. Um dia cheguei e encontrei-a sentada no escuro.

— Sabes o que é pior do que estar sozinha? — perguntou ela sem me olhar. — É sentir que perdi a filha para outra mulher.

Sentei-me ao lado dela e tentei explicar-lhe tudo: o medo do Rui, a solidão da Teresa, o peso da responsabilidade. Mas ela só abanava a cabeça.

— Tu não percebes… Quando eras pequena, prometeste-me que nunca me ias deixar sozinha.

Senti uma raiva surda crescer dentro de mim. — Mãe, eu não te deixei! Estou aqui! Mas não posso ser tudo para toda a gente!

Ela chorou baixinho e eu chorei com ela. Naquele momento percebi que estava a perder as duas.

Os meses seguintes foram um turbilhão de emoções. A saúde da Teresa piorou rapidamente. Passei noites em claro ao lado dela e do Rui no hospital de Santa Maria. A minha mãe ligava-me todos os dias, às vezes só para ouvir a minha voz.

No funeral da Teresa, vi a minha mãe ao longe, encostada a uma árvore do cemitério. Fui ter com ela depois do enterro.

— Vim porque sabia que precisavas de mim — disse ela, sem sorrir.

Abracei-a com força. Senti o seu corpo rígido ceder um pouco nos meus braços.

Depois desse dia, tentei reconstruir as pontes entre nós. Mas nada voltou a ser como antes. Havia feridas abertas em ambas que talvez nunca sarassem completamente.

O Rui ficou mais fechado em si mesmo. Eu tentava ser forte por ele e pela minha mãe, mas sentia-me cada vez mais vazia.

Um domingo à tarde, sentei-me com a minha mãe na sala dela, o sol a entrar pelas cortinas rendadas.

— Achas que fiz mal? — perguntei-lhe finalmente.

Ela olhou para mim durante muito tempo antes de responder:

— Fizeste o que achaste certo. Só queria ter sido eu a tua prioridade…

Ficámos em silêncio muito tempo. Depois ela pegou na minha mão e apertou-a com força.

Hoje olho para trás e pergunto-me: será possível amar duas mães sem magoar nenhuma? Ou será que escolher cuidar é sempre perder alguém pelo caminho?

E vocês? Já sentiram este peso de ter de escolher entre quem amam?