Entre Duas Mulheres: O Meu Marido, a Sogra e Eu – Um Casamento à Beira do Abismo
— Outra vez sopa de feijão, Marta? — perguntou o Rui, pousando a colher com um suspiro que me atravessou como uma faca.
A minha mão tremeu ao pousar a travessa na mesa. Tentei sorrir, mas a voz dele já me tinha ferido. — Se não gostas, posso fazer outra coisa — respondi, tentando esconder a mágoa.
Ele abanou a cabeça, mas não disse mais nada. O silêncio instalou-se entre nós, pesado, como tantas vezes ultimamente. Oiço o relógio da cozinha marcar cada segundo, cada batida mais alta do que a anterior. O Rui levanta-se, pega no casaco e diz: — Vou sair um bocado. Preciso de apanhar ar.
Fico ali sentada, sozinha, a olhar para o prato dele ainda cheio. Pergunto-me onde foi parar aquele homem que me fazia rir, que me surpreendia com flores do jardim da mãe dele. Agora, parece que tudo o que faço está errado.
Naquela noite, enquanto arrumo a cozinha, vejo uma mensagem no telemóvel dele: “Amanhã faço arroz de pato, filho. Não te atrases.” O coração dispara. Sinto-me traída — não por outra mulher, mas pela própria mãe dele.
No dia seguinte, decido segui-lo. Sinto-me ridícula, mas não consigo evitar. Vejo-o entrar no prédio da Dona Lurdes, a mãe dele. Fico no carro, as mãos suadas no volante. Imagino-os à mesa, ela a servi-lo com aquele sorriso de quem sabe tudo sobre ele. Sinto-me pequena, invisível.
Quando ele chega a casa, tento confrontá-lo:
— Foste almoçar à tua mãe?
Ele hesita um segundo antes de responder:
— Fui. Ela sente-se sozinha desde que o pai morreu.
— E eu? — pergunto, a voz embargada. — Eu também me sinto sozinha.
Ele não responde. Vai tomar banho e deixa-me ali, com as palavras presas na garganta.
Os dias passam e tudo piora. A Dona Lurdes liga-lhe todos os dias. Às vezes ouço-os rir ao telefone. Outras vezes ela aparece cá em casa sem avisar, trazendo tupperwares com comida “para o Rui não passar fome”. Sinto-me cada vez mais inútil.
Uma noite, durante o jantar, explodo:
— Porque é que nunca defendes o nosso espaço? Porque é que ela tem sempre prioridade?
O Rui olha para mim como se eu fosse uma estranha:
— Estás a exagerar. É minha mãe! Não posso deixá-la sozinha.
— Mas estás a deixar-me sozinha a mim! — grito, incapaz de me controlar.
Ele levanta-se da mesa e sai de casa. Fico ali sentada, as lágrimas a caírem-me pelo rosto. Sinto-me derrotada.
No dia seguinte, a Dona Lurdes aparece cá em casa sem avisar. Traz um bolo de laranja e um sorriso falso.
— Olá Marta! O Rui está?
Respiro fundo e tento ser cordial:
— Não está. Foi trabalhar.
Ela entra na mesma e começa a arrumar a cozinha como se fosse dela.
— Sabes, Marta, o Rui sempre gostou muito do meu arroz de pato. Desde pequeno que só comia se fosse eu a fazer…
Sinto o sangue ferver-me nas veias.
— Dona Lurdes, agradeço muito tudo o que faz pelo Rui, mas esta é a minha casa também.
Ela olha para mim com aquele ar de superioridade:
— Claro, querida. Só quero ajudar.
Quando o Rui chega, encontra-nos em silêncio na sala. Ele percebe logo que algo se passou.
— O que é que se passa aqui?
A Dona Lurdes faz-se de vítima:
— Nada, filho. Só estava a conversar com a Marta.
Eu não aguento mais:
— Ou ela percebe que tem de respeitar o nosso espaço ou eu não aguento mais!
O Rui fica entre as duas mulheres da sua vida, sem saber para onde se virar. Vejo nos olhos dele o medo de perder uma de nós.
Nessa noite dormimos costas voltadas. O silêncio é ensurdecedor.
Passam-se semanas assim. A tensão cresce até ao limite. Um dia chego a casa e encontro as malas do Rui feitas junto à porta.
— Preciso de tempo — diz ele, sem me olhar nos olhos.
Sinto o chão fugir-me dos pés.
— Vais para casa da tua mãe?
Ele acena com a cabeça e sai sem dizer mais nada.
Os dias seguintes são um vazio imenso. A casa parece maior e mais fria sem ele. A Dona Lurdes liga-me uma vez:
— O Rui está bem. Precisa só de tempo para pensar.
Não respondo. Sinto raiva dela, mas também de mim própria por ter deixado chegar as coisas a este ponto.
Começo a questionar tudo: Será que fui demasiado possessiva? Será que ele alguma vez me escolheu verdadeiramente? Ou será que sempre fui apenas uma intrusa entre ele e a mãe?
As amigas dizem para eu lutar por ele, mas sinto-me exausta. Vou trabalhar mecanicamente, volto para casa e sento-me no sofá à espera de um telefonema que nunca chega.
Uma noite decido ir ter com ele à casa da Dona Lurdes. Bato à porta e ela abre com um sorriso vitorioso.
— O Rui está no quarto dele.
Subo as escadas devagarinho e bato à porta do quarto onde ele cresceu. Ele está sentado na cama, rodeado de fotografias antigas.
— Vim porque preciso de respostas — digo-lhe.
Ele olha para mim com olhos cansados:
— Não sei o que fazer, Marta. Sinto-me preso entre ti e a minha mãe.
Sento-me ao lado dele:
— Eu não quero competir com ela. Só quero que escolhas construir uma vida comigo.
Ele baixa os olhos:
— Não sei se consigo deixá-la sozinha…
As lágrimas caem-me pelo rosto:
— E eu? Vais deixar-me sozinha?
Ficamos ali sentados em silêncio durante muito tempo. No fim levanto-me e digo:
— Quando souberes o que queres, diz-me.
Saio daquela casa com o coração despedaçado.
Os dias passam devagarinho. Começo finalmente a cuidar de mim: vou correr ao parque, inscrevo-me num curso de cerâmica, volto a rir com as amigas. Aos poucos percebo que não posso depender da escolha dele para ser feliz.
Um mês depois recebo uma mensagem do Rui: “Podemos conversar?”
Encontro-o num café perto do rio Tejo. Ele está magro e parece mais velho.
— Percebi que tenho de crescer — diz ele. — Quero construir uma vida contigo… mas preciso que aceites que a minha mãe vai sempre fazer parte dela.
Olho para ele e percebo que também mudei:
— Eu aceito… desde que tu também aceites os meus limites e escolhas proteger-nos enquanto casal.
Ele sorri pela primeira vez em meses e segura-me as mãos por cima da mesa.
Não sei se vamos conseguir ultrapassar tudo isto, mas pela primeira vez sinto esperança.
Às vezes pergunto-me: quantas mulheres portuguesas já passaram pelo mesmo? Até onde devemos ir por amor? E será possível amar alguém sem perdermos quem somos?