Não Fugas de Ti Mesma, Eva! – A Fuga de Uma Noiva da Família do Noivo
— Eva, não podes simplesmente fugir de tudo, percebes? — A voz da Dona Teresa ecoava pela cozinha, carregada de uma autoridade que me esmagava o peito. Eu estava ali, sentada à mesa, com as mãos a tremer em cima do pano de linho branco, enquanto ela cortava cebolas com a precisão de quem já cortou demasiados sonhos na vida.
O relógio marcava sete e meia da manhã. O cheiro do café misturava-se com o das lágrimas que eu tentava esconder. O António, meu noivo, ainda dormia no andar de cima, alheio à tempestade que se formava cá em baixo.
— Não é fugir, Dona Teresa. Eu só… preciso de tempo para pensar — murmurei, quase sem voz.
Ela pousou a faca e olhou-me nos olhos. — Pensar? Pensar no quê, menina? O casamento está marcado há meses! A família toda já sabe, a igreja está reservada, até o padre já confirmou! Não podes fazer isto ao António. Nem a nós.
Senti o peso das expectativas a esmagar-me. Desde que aceitei o pedido de casamento do António, parecia que deixei de ser a Eva para passar a ser “a noiva do António”. A filha da Dona Lurdes, a futura nora da Dona Teresa. Já ninguém me perguntava o que eu queria. Só o que eu devia fazer.
Lembrei-me do dia em que o António me pediu em casamento, no miradouro de Santa Catarina. O pôr-do-sol pintava Lisboa de dourado e ele ajoelhou-se, com aquele sorriso tímido. Eu disse que sim porque achei que era isso que se esperava de mim. Mas será que era mesmo isso que eu queria?
— Eva! — A voz do António soou nas escadas. — Que se passa?
Levantei-me num salto, limpando as lágrimas à manga do robe. — Nada, António. Só estou cansada.
Ele olhou para mim com preocupação genuína. — Tens andado estranha. A minha mãe disse que te viu chorar ontem à noite na varanda. Queres falar?
Queria gritar. Queria dizer-lhe que me sentia sufocada naquela casa cheia de regras não ditas, onde cada gesto era observado e julgado. Queria dizer-lhe que não sabia se queria casar, se queria aquela vida para mim. Mas só consegui balbuciar:
— Preciso de ar.
Saí porta fora antes que alguém me impedisse. O ar frio da manhã cortou-me a cara, mas não me importei. Caminhei pela rua empedrada até ao jardim da praça, onde as árvores ainda guardavam as folhas do outono.
Sentei-me num banco e deixei-me chorar em silêncio. Lembrei-me da minha mãe, da Dona Lurdes, sempre tão submissa ao meu pai, sempre a pôr os outros à frente dela própria. Sempre a dizer-me: “Eva, não faças ondas.”
Mas eu sentia as ondas dentro de mim a crescerem, imparáveis.
O telemóvel vibrou no bolso: uma mensagem do António.
“Volta para casa, por favor. Vamos falar.”
Respirei fundo e escrevi: “Preciso de tempo.”
Fiquei ali horas, a ver as pessoas passarem: a senhora do quiosque com o avental manchado de tinta; o senhor Manuel a passear o cão; duas crianças a correr atrás de um pombo. Todos pareciam ter um lugar no mundo menos eu.
Quando finalmente regressei à casa dos pais do António, encontrei-os todos na sala: Dona Teresa com os olhos vermelhos, António com as mãos nos bolsos e o senhor Joaquim a olhar para o chão.
— Eva — começou o António —, precisamos mesmo de conversar.
Sentei-me no sofá, sentindo todos os olhares sobre mim.
— Eu… não sei se estou pronta para casar — disse finalmente.
O silêncio caiu como uma sentença.
Dona Teresa foi a primeira a reagir:
— Não sabes? Como assim não sabes? Depois de tudo o que fizemos por ti? Depois de te recebermos nesta casa como uma filha?
O António aproximou-se e pegou-me nas mãos.
— Eva, se há alguma coisa errada… podemos resolver juntos. Eu amo-te.
Olhei para ele e vi sinceridade nos olhos dele. Mas também vi medo. Medo de perder o futuro que tinha planeado comigo.
— Não é contigo, António. És bom para mim. Mas eu… perdi-me pelo caminho. Sinto que já não sei quem sou.
O senhor Joaquim pigarreou:
— Isto é só nervosismo antes do casamento. A tua mãe também ficou assim antes de casar comigo.
Quis gritar: “Não sou a tua mulher! Não sou a tua filha! Sou eu!”
Mas limitei-me a levantar-me.
— Preciso sair daqui — disse apenas.
Dona Teresa levantou-se também:
— Se saíres por essa porta agora… não voltes mais!
O António tentou agarrar-me pelo braço:
— Eva, por favor!
Soltei-me dele e corri escadas acima para o quarto onde tinha dormido nas últimas semanas. Fechei a porta à chave e sentei-me na cama, ofegante.
Peguei na mala e comecei a enfiar roupa à pressa: camisolas, calças de ganga, o velho casaco azul que era da minha avó. O telemóvel tocava sem parar: chamadas da minha mãe, mensagens do António.
“Eva, volta.”
“Eva, precisamos falar.”
“Eva, não faças isto.”
Olhei pela janela e vi o céu cinzento sobre Lisboa. Senti uma calma estranha invadir-me. Pela primeira vez em muito tempo, estava a fazer algo só por mim.
Saí pela porta das traseiras para evitar mais confrontos. Caminhei até à estação de comboios e comprei um bilhete para o Porto — sem pensar muito no que faria depois.
No comboio, encostei a cabeça ao vidro e deixei as lágrimas correrem livremente. Lembrei-me da infância em Coimbra, dos verões passados na praia da Figueira da Foz com os meus pais antes do divórcio. Lembrei-me dos sonhos antigos: ser escritora, viajar pelo mundo… Quando foi que deixei tudo isso para trás?
Cheguei ao Porto ao fim da tarde. Liguei à minha amiga Inês:
— Inês… posso ficar uns dias contigo?
Ela nem hesitou:
— Claro que sim! Vem já!
Na casa dela senti finalmente um pouco de paz. Contou-me histórias das suas viagens pela Europa, das noites em Berlim e dos amores passageiros em Paris. Olhei para ela e invejei-lhe a coragem.
— Eva — disse ela uma noite — tu não tens de viver segundo as regras dos outros. Tens direito à tua própria vida.
Essas palavras ficaram comigo como um eco reconfortante.
Os dias passaram devagar no Porto. Passeava pelas ruas estreitas da Ribeira, sentava-me nos cafés a observar as pessoas e escrevia num caderno velho tudo o que sentia: medo, culpa, esperança.
A minha mãe ligava todos os dias:
— Filha… volta para casa. O teu pai está preocupado.
Mas eu sabia que voltar era voltar ao mesmo ciclo de expectativas e desilusões.
O António mandou uma última mensagem:
“Se precisares de mim… estarei aqui.”
Chorei ao ler aquilo. Ele era bom demais para mim — ou talvez eu fosse boa demais para aquela vida pequena demais para os meus sonhos.
Comecei a procurar trabalho no Porto: numa livraria pequena na Rua das Flores aceitaram-me como assistente. Pela primeira vez em anos senti-me útil por ser quem era — não por ser filha ou noiva de alguém.
Certo dia entrei numa igreja antiga só para fugir da chuva e sentei-me num banco vazio. Olhei para os vitrais coloridos e perguntei baixinho:
— Será que fiz bem? Será que algum dia vou deixar de me sentir culpada?
Uma senhora idosa sentou-se ao meu lado sem dizer nada. Ficámos ali em silêncio durante minutos intermináveis até ela sorrir e dizer:
— Às vezes fugir é só outra forma de procurar quem somos.
Sorri-lhe com gratidão.
Hoje olho para trás e vejo aquela manhã na cozinha da Dona Teresa como o início do meu verdadeiro caminho. Ainda sinto saudades do António às vezes; ainda penso se teria sido feliz naquela vida planeada por outros… Mas agora sei: só posso ser feliz sendo fiel a mim mesma.
E vocês? Já sentiram que estavam a viver uma vida que não era vossa? O que fariam se tivessem coragem de fugir?