Mãe sob o céu de Lisboa: Serei eu suficiente?
— Maria, não podes continuar assim! — a voz da minha mãe, Dona Amélia, ecoa pela cozinha, misturando-se com o cheiro a café acabado de fazer e o barulho da chuva a bater nos vidros. — Quatro filhos, um marido sempre fora de casa, e tu a trabalhar horas a fio na padaria. Achas que é vida para alguém?
Aperto o pano de louça nas mãos, tentando conter as lágrimas que ameaçam cair. Olho para os meus filhos sentados à mesa — o João, com doze anos, a tentar acabar os trabalhos de casa; a Inês, de dez, a brincar com o pão do pequeno-almoço; o Tiago e a Leonor, gémeos de seis anos, a discutir por causa de um lápis de cor. Sinto-me exausta, como se cada palavra da minha mãe fosse mais um peso nos meus ombros já cansados.
— Mãe, eu faço o melhor que posso — respondo em voz baixa, mas ela não me ouve ou finge não ouvir.
— O melhor? O melhor era teres pensado antes de encheres esta casa de crianças! — atira ela, levantando-se e ajeitando o xaile sobre os ombros. — O teu pai nunca teria permitido isto.
Oiço a porta da rua a bater. O António ainda não chegou do turno da noite. Trabalha como segurança num supermercado do outro lado da cidade. Mal nos vemos. Quando chega, está sempre cansado demais para conversar ou brincar com os miúdos. Sinto falta dele, mas não posso dizer isso em voz alta. Não agora.
A manhã passa entre gritos, risos e choros. A Inês parte um copo e corta-se no dedo. O João perde o autocarro para a escola e culpa-me por não o ter acordado a tempo. Os gémeos fazem birra porque querem ver desenhos animados antes de sair. Sinto-me a falhar em tudo.
No caminho para a padaria onde trabalho, passo pela mercearia do senhor Manuel. Ele acena-me com simpatia.
— Bom dia, Maria! Hoje vai chover até à noite! — diz ele.
Sorrio-lhe, mas por dentro só sinto vontade de chorar. Entro na padaria e visto o avental branco. A dona Rosa olha-me com pena.
— Estás com má cara, filha. Dormiste mal?
— Dormi o costume — respondo, tentando sorrir.
O dia arrasta-se entre fornadas de pão quente e clientes apressados. Penso nos miúdos na escola, no António no trabalho, na minha mãe sozinha em casa a resmungar sobre tudo e todos. Penso em mim — quando foi a última vez que pensei em mim?
À tarde, quando chego a casa, encontro a Dona Amélia sentada no sofá com os gémeos ao colo. Está mais calma.
— Fiz sopa para o jantar — diz ela sem me olhar nos olhos.
— Obrigada, mãe.
Agradeço-lhe porque sei que é o máximo que consigo dela. Nunca foi mulher de muitos carinhos ou palavras doces. Cresci assim: entre silêncios e obrigações.
O António chega tarde. Traz o rosto cansado e as mãos cheias de calos.
— Olá — diz ele baixinho, pousando as chaves na mesa.
— Olá — respondo.
Jantamos em silêncio. Os miúdos falam alto, discutem sobre quem vai tomar banho primeiro. O António levanta-se sem dizer nada e vai fumar para a varanda. Sigo-o com o olhar e sinto um aperto no peito.
Mais tarde, depois de todos dormirem, sento-me à mesa da cozinha com uma chávena de chá frio nas mãos. Oiço os passos da minha mãe no corredor.
— Maria… — começa ela, hesitante. — Eu sei que sou dura contigo. Mas só quero o melhor para ti…
Olho para ela e vejo nos seus olhos uma tristeza antiga, talvez arrependimento por nunca ter sabido amar de outra forma.
— Eu sei, mãe. Mas às vezes sinto que nunca vou ser suficiente…
Ela aproxima-se e pousa uma mão áspera sobre a minha.
— És mais forte do que pensas.
Naquela noite sonho com o passado: vejo-me menina, a correr pelos becos de Alfama atrás do meu pai; vejo a Dona Amélia mais nova, com o rosto fechado e as mãos sempre ocupadas; vejo-me a casar com o António numa igreja pequena e fria; vejo os meus filhos nascerem um a um; vejo lágrimas e sorrisos misturados como chuva e sol num dia de primavera.
Os dias passam assim: trabalho, casa, filhos, discussões com a minha mãe, silêncios com o António. Às vezes penso em fugir — apanhar um comboio para o norte e recomeçar noutro lugar qualquer onde ninguém me conheça nem me julgue. Mas depois olho para os meus filhos e sei que não conseguiria deixá-los nem por um segundo.
Uma tarde, ao buscar os gémeos à escola, encontro a professora da Inês à porta.
— Maria, posso falar consigo?
O coração aperta-se-me no peito.
— Claro… aconteceu alguma coisa?
— A Inês anda distraída nas aulas… parece triste. Perguntei-lhe se estava tudo bem em casa…
Sinto uma vergonha imensa. Será que estou mesmo a falhar como mãe? Chego a casa e abraço a Inês com força.
— O que se passa contigo, filha?
Ela encolhe os ombros.
— Nada… só tenho saudades do pai… ele nunca está connosco…
Fico sem palavras. À noite falo com o António.
— Os miúdos sentem a tua falta… eu também…
Ele olha-me nos olhos pela primeira vez em semanas.
— Eu sei… mas não sei fazer melhor…
Abraçamo-nos em silêncio. Pela primeira vez em muito tempo sinto que talvez não esteja sozinha nesta luta.
No domingo seguinte decido fazer um almoço especial: bacalhau à Brás como fazia o meu pai nos dias de festa. A família senta-se à mesa: risos tímidos ao início, depois conversas mais animadas. Até a Dona Amélia sorri ao ver os netos lambuzados de azeite.
Quando todos vão dormir fico sozinha na cozinha a arrumar os pratos. Olho pela janela: Lisboa brilha sob um céu limpo depois da tempestade.
Penso em tudo o que vivi até aqui: as dores, as alegrias pequenas mas preciosas, os medos que me assombram todas as noites. Pergunto-me se algum dia vou sentir que sou suficiente para os meus filhos… para mim mesma…
E vocês? Também sentem este peso invisível? O que é ser uma boa mãe afinal?