Nada, o Cãozinho que Trouxe Luz às Minhas Sombras

— Mãe, não podes continuar assim! — gritou a minha filha, Inês, batendo com força a porta da cozinha. O som ecoou pela casa vazia, misturando-se com o cheiro do café acabado de fazer e o silêncio pesado que se instalou desde que o António partiu. Fiquei ali, sentada à mesa, as mãos a tremerem levemente em volta da chávena. Oiço os passos dela a afastarem-se, o ranger das escadas antigas, e penso: será que algum dia vou conseguir voltar a ser eu?

Desde que o António morreu, há dois anos, a casa tornou-se um museu de memórias. Os quadros dele ainda pendurados, as pantufas ao lado da lareira, o casaco esquecido no bengaleiro. O meu filho Miguel vem cá todos os domingos com os miúdos, mas é como se cada visita fosse uma peça de teatro — todos fingimos estar bem para não magoar os outros. Só Martim, o mais novo dos meus netos, parece ver através da minha fachada.

Foi ele quem apareceu numa tarde chuvosa com uma caixa de papelão nas mãos e um sorriso nervoso.

— Avó, trouxe-te uma surpresa! — anunciou, pousando a caixa aos meus pés.

Abri-a devagar. Lá dentro, encolhida e trémula, estava uma cadelinha de olhos grandes e tristes. O Martim olhou-me com esperança.

— Chama-se Nada. Porque… porque às vezes parece que nada pode ajudar, mas eu acho que ela pode.

A minha garganta apertou-se. Não queria um animal. Não queria mais ninguém para cuidar, para perder. Mas vi nos olhos do Martim o mesmo medo que sinto todos os dias: o medo de desaparecer sem deixar rasto.

— Obrigada, querido — murmurei, tentando sorrir.

A partir desse dia, Nada tornou-se parte da casa. No início, tropeçava nela a cada passo. Rosnava baixinho quando alguém se aproximava demasiado depressa. Eu própria não sabia como lidar com aquele pequeno ser dependente de mim. A Inês ficou furiosa quando soube.

— Achas mesmo boa ideia? — perguntou-me ao telefone. — Já tens idade para essas responsabilidades? E se te acontece alguma coisa?

— Inês, estou bem — menti. — A Nada faz-me companhia.

— Companhia? Ou estás só a tentar tapar o buraco que ficou?

As palavras dela ficaram a ecoar-me na cabeça durante dias. Era verdade: havia um buraco em mim, um vazio tão grande que nem todos os netos do mundo conseguiam preencher. Mas a Nada… ela não tentava preencher nada. Limitava-se a estar ali, a olhar para mim com aqueles olhos atentos, como se dissesse: “Eu também não sei o que fazer com esta tristeza. Mas estou aqui.”

Com o passar das semanas, comecei a sair mais de casa. Passeios curtos pelo bairro, sempre com Nada ao meu lado. Os vizinhos começaram a reparar.

— Olha a dona Rosa! Já não a via há tanto tempo! — dizia a D. Teresa do rés-do-chão.

— Que cachorrinha tão bonita! — exclamava o Sr. Manuel do talho.

Mas nem tudo era fácil. O Miguel começou a preocupar-se.

— Mãe, tens noção do trabalho que dá um cão? E se ela ficar doente? E se tu caíres?

— Miguel, eu estou velha mas não estou morta! — respondi-lhe um dia, cansada daquela preocupação sufocante.

Ele olhou-me com olhos de quem não sabe se há de rir ou chorar.

— Só não quero perder-te também.

Foi aí que percebi: eles têm tanto medo de me perder como eu tenho medo de perder o pouco que me resta.

Uma noite, acordei sobressaltada com um barulho estranho. Nada chorava baixinho junto à porta da rua. Fui ver: alguém tinha deixado um bilhete anónimo na caixa do correio. “A sua família preocupa-se consigo. Não se isole.” Fiquei horas sem dormir, a pensar quem teria sido. A Inês? O Miguel? Algum vizinho intrometido?

No dia seguinte, enfrentei-os à mesa do almoço.

— Recebi um bilhete estranho — disse-lhes. — Alguém acha que estou a isolar-me.

O silêncio caiu como uma pedra pesada.

— Fui eu — confessou o Martim baixinho. — Desculpa, avó. Só queria que soubesses que não estás sozinha.

Olhei para ele e vi-me refletida nos seus olhos: uma mulher cansada, mas ainda capaz de amar e ser amada.

Os meses passaram e Nada foi crescendo. Aprendi a rir outra vez quando ela fazia disparates: roía as minhas pantufas preferidas ou ladrava aos pombos na varanda. Comecei até a escrever um diário sobre as nossas aventuras — algo que nunca pensei voltar a fazer depois do António partir.

Mas as feridas antigas não desapareceram. Um dia, durante um jantar de família, uma discussão rebentou entre Inês e Miguel sobre quem devia “tomar conta” de mim.

— Ela precisa de cuidados! — gritava Inês.

— Ela precisa é de liberdade! — respondia Miguel.

Eu sentia-me como uma criança no meio dos pais divorciados. Levantei-me da mesa e fui para o jardim com Nada ao colo. Lá fora, sentei-me no banco onde costumava conversar com o António nas noites quentes de verão.

— Estás cansada disto tudo também, não estás? — sussurrei à cadelinha.

Ela lambeu-me as lágrimas sem fazer perguntas.

Nessa noite escrevi no diário: “Talvez nunca volte a ser inteira. Mas talvez também não precise disso para ser feliz outra vez.”

No Natal desse ano, toda a família veio cá a casa. Pela primeira vez em muito tempo, senti-me rodeada de amor verdadeiro — imperfeito, barulhento, cheio de falhas e discussões… mas real. O Martim trouxe uma coleira nova para Nada e ajudou-me a pô-la.

— Avó, sabes porque lhe dei este nome? Porque mesmo quando achamos que não temos nada… temos sempre alguma coisa. Temos uns aos outros.

Olhei para ele e para todos à minha volta: filhos preocupados demais, netos barulhentos demais… e uma cadelinha desastrada que me ensinou a aceitar o caos da vida.

Agora escrevo estas palavras com Nada enroscada aos meus pés e pergunto-me: quantas vezes fugimos da dor em vez de a abraçarmos? Será que é possível encontrar esperança mesmo quando tudo parece perdido? Gostava tanto de saber o que vocês pensam…