Muros Invisíveis: O Meu Cativeiro Num Bairro Social de Lisboa

— Outra vez a música alta, Inês? Achas que isto é um bar? — A voz da Dona Amélia atravessa a porta como uma faca, cortando o pouco silêncio que me resta neste apartamento minúsculo. Sinto o sangue ferver-me nas veias, mas não respondo. Já sei que, se abrir a boca, só vai piorar.

Encosto-me à parede fria da cozinha, tentando abafar o som dos meus próprios pensamentos. Oiço o televisor do vizinho do lado, o choro de uma criança no andar de cima, e, por baixo de tudo isso, o latejar do meu coração. Desde que os meus pais se separaram e a minha mãe decidiu que íamos começar do zero neste bairro social de Chelas, sinto-me como uma peça fora do sítio. Não pertenço aqui. Não pertenço em lado nenhum.

A minha mãe está sempre ausente — trabalha em dois empregos para pagar as contas e, quando chega a casa, só quer dormir. O meu pai? Mudou-se para o Porto com a nova namorada e liga-me uma vez por mês, se tanto. Fico sozinha com as paredes cinzentas deste prédio e com a Dona Amélia, que parece ter feito da minha vida a sua missão pessoal.

— Se a tua mãe estivesse mais atenta, não fazias tanta asneira! — grita ela outra vez, agora do corredor. Sinto as lágrimas a quererem saltar-me dos olhos, mas engulo-as. Não vou dar-lhe esse prazer.

No elevador, cruzo-me com o Sr. Joaquim, que me olha de lado e murmura qualquer coisa sobre “a juventude de hoje”. No supermercado, sinto os olhares das outras mães quando pago com o cartão do rendimento social. Na escola, os colegas fazem piadas sobre “os bairros” e evitam convidar-me para festas. Tudo isto vai-se acumulando dentro de mim como lixo num contentor sem fundo.

Uma noite, depois de mais uma discussão com a minha mãe — ela exausta, eu revoltada — saio para o pátio do prédio. O ar está pesado de humidade e cheira a fritos vindos das janelas abertas. Sento-me num banco de cimento e olho para as luzes dos outros apartamentos. Pergunto-me quantas pessoas ali dentro se sentem tão sozinhas como eu.

— Inês? — Ouço uma voz suave atrás de mim. É o Tiago, um rapaz do 8ºB que mora no bloco ao lado. Senta-se ao meu lado sem pedir licença. — Estás bem?

Quero dizer-lhe que não estou, que me sinto presa, sufocada por tudo isto. Mas só encolho os ombros.

— Sabes… também não gosto disto aqui — confessa ele. — Mas às vezes penso que somos nós que temos de mudar as coisas.

Ficamos ali em silêncio durante uns minutos. Pela primeira vez em muito tempo, sinto que alguém me entende.

Mas no dia seguinte tudo volta ao mesmo. Dona Amélia bate-me à porta porque “ouviu barulhos estranhos” durante a noite. A minha mãe chega tarde e nem repara que não jantei. No grupo da turma, alguém partilha uma foto minha no pátio com o Tiago e começam logo as bocas: “A Inês já arranjou namorado no bairro!” Sinto-me exposta, vulnerável.

Uma tarde, depois das aulas, encontro a Dona Amélia à porta do prédio com outras vizinhas.

— A tua mãe devia ter vergonha! Deixar-te andar por aí feita perdida… — diz ela alto o suficiente para todos ouvirem.

— Não sou nenhuma perdida! — grito-lhe de volta, surpreendendo até a mim própria.

Ela abana a cabeça e murmura algo sobre “falta de educação”. As outras vizinhas olham para mim como se fosse um animal selvagem solto na rua.

Subo as escadas a correr e tranco-me no quarto. Choro até não ter mais lágrimas. Penso em ligar ao meu pai, mas sei que ele vai dizer para “ter paciência” ou “ignorar”. A minha mãe entra no quarto mais tarde e senta-se na beira da cama.

— Inês… eu sei que isto não é fácil para ti. Mas temos de aguentar. Não temos outro sítio para ir.

— Mas eu não aguento mais! — grito-lhe. — Sinto-me invisível aqui! Ou pior: sinto que todos me veem como um problema!

Ela abraça-me com força, mas sinto que há um muro entre nós — um muro feito de cansaço, mágoa e coisas por dizer.

Os dias passam devagar. Tento concentrar-me nos estudos, mas a cabeça está sempre noutro lado. O Tiago continua a falar comigo na escola; às vezes estudamos juntos na biblioteca para fugir ao barulho do bairro. Ele conta-me dos problemas dele: o pai alcoólico, a irmã mais nova sempre doente. Percebo que cada um carrega os seus próprios muros invisíveis.

Um sábado à noite há uma festa no prédio ao lado. Ouvem-se gritos e música até tarde; alguém chama a polícia. No dia seguinte, Dona Amélia bate-me à porta:

— Já sei que foste tu e os teus amigos! Sempre metida em confusão!

— Eu nem sequer estava lá! — protesto.

Ela não quer saber; já decidiu quem é a culpada.

Na escola, as notas começam a cair. A diretora chama a minha mãe para uma reunião; dizem-lhe que estou “desmotivada” e “isolada”. Quando chego a casa nesse dia, encontro-a sentada à mesa da cozinha com os olhos vermelhos.

— Inês… não sei o que fazer contigo — diz ela baixinho.

Sinto uma raiva surda crescer dentro de mim. Porque é sempre sobre mim? Porque é que ninguém vê o esforço que faço só para sair da cama todos os dias?

Nessa noite escrevo no meu diário:
“Será que algum dia vou encontrar um lugar onde possa respirar sem medo? Onde não seja sempre ‘a filha da divorciada’, ‘a miúda do bairro’, ‘a problemática’?”

O tempo passa e aprendo a sobreviver entre os muros invisíveis deste bairro: ignoro os olhares, respondo menos à Dona Amélia, procuro refúgio nos livros e nas conversas com o Tiago. Mas nunca deixo de sentir aquele vazio cá dentro — como se faltasse sempre qualquer coisa para me sentir inteira.

Às vezes pergunto-me: será que somos mesmo definidos pelo sítio onde vivemos? Ou será possível construir um lar dentro de nós próprios, mesmo quando tudo à volta parece desmoronar?

E vocês? Já sentiram que não pertencem a lado nenhum? Como encontraram forças para continuar?