Verde de Inveja: O Meu Combate com a Parcialidade do Meu Padrasto no Casamento da Minha Irmã

— Não percebes, pai? Sempre foi assim! — gritei, a voz embargada, enquanto o vestido de dama de honor me apertava o peito mais do que devia.

O salão da quinta estava cheio de luzes douradas, as mesas decoradas com flores brancas e verdes. A minha irmã, Inês, sorria no centro da pista, rodeada de amigos e familiares. O meu padrasto — ou melhor, o homem que sempre chamei de pai — estava ao lado dela, orgulhoso, com um brilho nos olhos que eu nunca vira dirigido a mim.

A minha mãe tentava acalmar-me, mas eu sentia-me como uma criança outra vez, perdida num mar de vozes e expectativas. Lembro-me do dia em que soube que ele não era meu pai biológico. Tinha oito anos. Ouvi a minha avó sussurrar à minha tia na cozinha: “A Marta é filha do António, não do Luís.” Fiquei paralisada atrás da porta. O mundo pareceu desabar sob os meus pés pequenos.

Mas nunca deixei de o chamar de pai. Ele ensinou-me a andar de bicicleta no parque da cidade, segurou-me quando caí e rasguei o joelho. Levou-me ao estádio da Luz para ver o Benfica jogar, mesmo quando eu preferia ficar em casa a desenhar. Sempre achei que me amava como à Inês.

Até hoje.

— Marta, não é altura para isto — sussurrou ele, tentando manter a compostura enquanto os convidados começavam a olhar na nossa direção.

— Não é altura? Quando é que seria altura? Quando me ignoraste durante meses para ajudar a Inês com o casamento? Quando escolheste o vestido dela comigo ao lado e nem reparaste em mim? — As lágrimas ameaçavam cair, mas forcei-me a manter o olhar firme.

A Inês sempre foi a estrela da família. Mais bonita, mais extrovertida, mais fácil de amar. Eu era a filha do outro homem, aquela que veio antes do recomeço da vida dele com a minha mãe. Sempre tentei compensar: boas notas, silêncio quando discutiam, ajuda em casa. Mas nunca foi suficiente.

No último mês, tudo girava à volta do casamento. A Inês queria tudo perfeito: flores brancas, bolo de três andares, música ao vivo. O pai dela — o nosso pai — fazia tudo para agradar-lhe. Eu era apenas mais uma peça no cenário.

Na véspera do casamento, ouvi-os na sala:

— Pai, obrigada por tudo. Não sei o que faria sem ti — disse a Inês, abraçando-o.

— És a minha princesa — respondeu ele, emocionado.

Fiquei à porta, invisível.

Hoje, durante a cerimónia, ele levou-a ao altar. O olhar dele era só para ela. Quando me viu na fila dos padrinhos, sorriu-me rapidamente e desviou o olhar. Senti uma pontada no peito.

Depois do brinde, tentei falar com ele:

— Pai, posso falar contigo?

Ele parecia apressado:

— Agora não, Marta. A Inês precisa de mim para as fotos.

E foi-se embora.

Agora estávamos ali, no jardim da quinta, longe dos olhares curiosos mas perto demais das mágoas antigas.

— Marta… — começou ele, mas interrompi-o.

— Não digas nada. Só queria sentir que também sou tua filha. Que também sou importante.

Ele suspirou e passou a mão pelo cabelo grisalho.

— Tu sabes que és importante para mim…

— Não sei! — interrompi. — Não sei porque nunca me mostraste como mostras à Inês. Sempre fui a segunda escolha! Sempre fui… menos!

Ele ficou calado. O silêncio entre nós era pesado como chumbo.

A minha mãe apareceu ao longe:

— Está tudo bem?

Assenti com a cabeça, mas por dentro estava em pedaços.

Lembrei-me das noites em que adormecia a ouvir os risos deles na sala enquanto eu estudava no quarto. Das vezes em que ele esquecia o meu aniversário mas nunca o da Inês. Dos natais em que os presentes dela eram sempre mais caros e pensados.

A inveja corroía-me por dentro. Não queria sentir isto pela minha irmã — ela não tinha culpa — mas não conseguia evitar.

Quando voltei ao salão, toda a gente dançava. Sentei-me sozinha numa mesa perto da janela e olhei para fora. As luzes refletiam-se nas lágrimas que finalmente deixei cair.

A Inês aproximou-se:

— Estás bem?

Assenti sem convicção.

— Sabes… sempre tive inveja de ti — disse ela de repente.

Olhei para ela, incrédula.

— De mim? Porquê?

— Porque tu és forte. Porque nunca precisaste de ser o centro das atenções para seres especial. O pai pode não mostrar da mesma forma… mas eu sei que te ama à tua maneira estranha e silenciosa.

Sorri tristemente.

— Às vezes não chega…

Ela apertou-me a mão:

— Talvez devesses dizer-lhe isso. Às vezes eles não percebem até lhes dizermos.

Fiquei ali sentada depois dela sair, perdida nos meus pensamentos. O meu padrasto passou por mim mais tarde e pousou uma mão no meu ombro:

— Marta… desculpa se te fiz sentir menos. Nunca foi essa a minha intenção.

Olhei para ele e vi cansaço nos olhos dele — ou talvez fosse tristeza por perceber finalmente o que eu sentia há anos.

O casamento acabou tarde. Ajudei a arrumar as mesas com a minha mãe enquanto todos se despediam. No carro para casa, ela olhou para mim pelo espelho retrovisor:

— Sabes que te amo muito, não sabes?

Assenti e sorri-lhe pela primeira vez naquele dia.

Em casa, sentei-me na cama e olhei para as fotografias antigas: eu em cima dos ombros dele no parque; eu e a Inês vestidas de fadas no Carnaval; nós os quatro na praia da Nazaré.

Talvez nunca seja suficiente para ele me amar como ama a Inês. Talvez nunca deixe de sentir esta inveja amarga quando vejo o brilho nos olhos dele por ela. Mas será que algum dia vou conseguir aceitar quem sou nesta família? Será possível perdoar-lhe — e perdoar-me — por sentir isto tudo?

E vocês? Já sentiram que são menos amados numa família? Como lidaram com isso?