Chamam-me todos os dias, mas será que me amam ou apenas querem a casa?
— Mãe, está tudo bem contigo? — pergunta o Pedro, a voz abafada pelo som de trânsito ao fundo.
— Está, filho. Está tudo igual — respondo, tentando esconder o cansaço na voz. Sei que ele não vai ouvir. Sei que já está a pensar no próximo compromisso, no próximo cliente, na próxima reunião.
— Olha, não te esqueças de tomar os comprimidos, está bem? Amanhã ligo outra vez. Beijinhos.
E desliga antes que eu possa perguntar-lhe como está a Marta, se o Tomás já aprendeu a andar de bicicleta ou se ele próprio dorme bem à noite. Fico com o telefone na mão, a olhar para o ecrã escuro, como se ali pudesse encontrar respostas para perguntas que nunca faço em voz alta.
A Joana liga logo a seguir. Sempre foi assim, como se combinassem entre si quem me liga a cada hora. O Rui raramente fala comigo ao telefone — diz que prefere o WhatsApp, mas as mensagens dele são sempre curtas: “Bom dia, mãe! Tudo bem?” e um emoji de coração.
Hoje é o meu aniversário. Setenta e três anos. O sol entra pela janela da sala e ilumina as fotografias antigas na estante: eu e o António no nosso casamento, os miúdos ainda pequenos na praia da Caparica, todos bronzeados e felizes. Sinto uma pontada no peito — não sei se é saudade ou apenas o coração cansado de esperar.
A campainha toca. O meu coração acelera. Levanto-me devagar, ajeito o cabelo diante do espelho do corredor e abro a porta. É a Joana, com um ramo de flores na mão e um sorriso apressado.
— Parabéns, mãe! — diz ela, dando-me um beijo na face. — Desculpa chegar atrasada, o trânsito estava impossível.
— Não faz mal, filha. O importante é que vieste.
Ela entra, pousa as flores na mesa da cozinha e começa logo a arrumar as compras que trouxe: leite sem lactose, pão integral, iogurtes magros. Tudo coisas que eu nunca pedi, mas ela insiste que são melhores para mim.
— O Pedro vem daqui a bocado — diz ela, sem me olhar nos olhos. — E o Rui… bem, sabes como ele é. Deve aparecer mais tarde.
Sento-me à mesa e observo-a enquanto ela arruma tudo com gestos rápidos e eficientes. Sempre foi assim: prática, decidida, incapaz de parar um segundo para ouvir o silêncio da casa.
— Joana… — começo eu, mas ela interrompe-me.
— Mãe, tens de pensar em mudar aquela fechadura da porta. Não gosto nada daquela tranca velha. E devias deixar de sair sozinha para ir ao supermercado. Qualquer dia caes e ninguém te encontra.
Suspiro. Já ouvi este discurso tantas vezes que podia recitá-lo de cor. Mas não digo nada. Limito-me a olhar pela janela, onde as árvores do jardim balançam ao vento.
O Pedro chega pouco depois, com uma garrafa de vinho e um bolo de supermercado.
— Parabéns, mãe! — diz ele, abraçando-me com força. — Espero que gostes do bolo. A Marta manda beijinhos, não pôde vir por causa do trabalho.
Sentamo-nos os três à mesa. O Rui chega uma hora depois, já com o telemóvel na mão e os olhos postos no ecrã.
— Desculpa o atraso, mãe — diz ele, dando-me um beijo rápido na testa. — Tive uma reunião importante.
O almoço passa-se entre conversas sobre trabalho, filhos e problemas do dia-a-dia. Ninguém pergunta como me sinto realmente. Ninguém repara nas minhas mãos trémulas quando corto o bolo ou no silêncio pesado que se instala quando falam dos seus planos para as férias — sempre longe daqui.
Depois do café, o Pedro olha-me com aquele ar sério que só usa quando quer falar de coisas importantes.
— Mãe… temos de conversar sobre a casa. Sabes que estás sozinha e isto pode ser perigoso. Já pensaste em vender e ir para um lar? Ou então podias vir viver connosco…
A Joana acena com a cabeça.
— Era melhor para todos nós, mãe. Assim estávamos mais descansados e tu tinhas companhia.
O Rui limita-se a encolher os ombros.
— Podes sempre arrendar a casa e ficar com o dinheiro — diz ele, sem levantar os olhos do telemóvel.
Sinto uma raiva surda a crescer dentro de mim. Será que só pensam nisto? Na casa? No dinheiro? No incómodo que é ter uma mãe velha sozinha num apartamento em Lisboa?
Levanto-me devagar e vou até à janela. Lá fora, as crianças brincam no jardim como antigamente brincavam os meus filhos. Sinto as lágrimas a quererem saltar dos olhos, mas engulo-as com dificuldade.
— Eu gosto da minha casa — digo finalmente, sem me virar para eles. — Aqui vivi toda a minha vida. Aqui criei-vos a todos. Não quero sair daqui só porque vos dá jeito.
O silêncio instala-se na sala como uma nuvem pesada. Sinto os olhares deles nas minhas costas — olhares de preocupação ou de impaciência? Não sei distinguir.
A Joana aproxima-se e pousa uma mão no meu ombro.
— Mãe… nós só queremos o melhor para ti.
Viro-me para ela e vejo nos seus olhos algo que não sei decifrar — será amor ou apenas culpa?
— O melhor para mim ou o melhor para vocês? — pergunto baixinho.
Eles não respondem. O Pedro desvia o olhar para o chão; o Rui finge receber uma mensagem importante; a Joana aperta-me o ombro com mais força do que seria necessário.
O resto da tarde passa-se em silêncio desconfortável. Quando finalmente se vão embora, fico sozinha na sala vazia, rodeada pelas fotografias antigas e pelo cheiro das flores frescas.
Sento-me no sofá e deixo que as lágrimas corram livremente pelo rosto enrugado. Sinto-me mais sozinha do que nunca — não pela ausência deles, mas pela ausência de tudo aquilo que já fomos juntos.
Pego no telefone e olho para as mensagens do Rui: “Bom dia, mãe! Tudo bem?” Sorrio tristemente.
Será isto amor? Será isto família? Ou sou apenas uma velha com um apartamento em Lisboa à espera de ser herdado?
Dizem que envelhecer é aprender a perder devagarinho tudo aquilo que nos fez felizes. Mas será mesmo assim? Será possível voltar a sentir-se amada sem ter nada para dar em troca?