No Frio da Madrugada: Fuga e Esperança em Lisboa

— Mãe, está frio… — sussurrou o Tomás, encolhido junto ao meu peito, enquanto a Leonor tremia no meu colo. O eco da porta do prédio a fechar-se atrás de nós ainda ressoava nos meus ouvidos, misturado com os gritos abafados do Ricardo lá em cima. O cheiro a cimento húmido e a luz mortiça do corredor faziam-me sentir como se estivesse num túnel sem saída.

A minha respiração era curta, entrecortada pelo medo e pelo esforço de não chorar. Não podia chorar. Não ali, não agora. A minha mão tremia quando procurei o telemóvel no bolso do casaco. Liguei à Inês, a minha melhor amiga desde o liceu. Ela sempre me disse que podia contar com ela para tudo. “Por favor, atende…”, pensei, enquanto ouvia o toque insistente.

— Inês? — sussurrei assim que ouvi a voz dela, rouca de sono.

— Marta? O que se passa? São três da manhã…

— Preciso de ajuda. O Ricardo… ele… — não consegui acabar a frase. O silêncio dela foi mais pesado que qualquer palavra.

— Marta, eu… o Tiago está cá em casa, sabes como ele é com estas coisas… Não posso meter-me nisso. Desculpa. — E desligou.

Fiquei ali, sentada no degrau frio, com os meus filhos nos braços e uma dor nova a crescer dentro de mim. Não era só medo do Ricardo. Era o vazio de perceber que estava sozinha. Que mesmo quem me prometeu apoio incondicional preferia virar costas à minha dor.

A Leonor começou a chorar baixinho. Tentei embalá-la, mas as lágrimas dela misturavam-se com as minhas. O Tomás olhava para mim com olhos grandes, assustados.

— Mãe, vamos para casa?

— Não podemos, filho. Agora não podemos.

O relógio do telemóvel marcava 3h17. Pensei em ligar à minha mãe, mas ela sempre disse que casamento é para durar, que “homem é assim mesmo” e que eu devia aguentar por causa das crianças. Senti raiva dela, de mim própria por ter acreditado que o amor podia mudar alguém como o Ricardo.

O frio entrava pelos buracos das sapatilhas do Tomás. Tirei o meu casaco e tapei-os aos dois, ficando só com uma camisola fina. O vento que vinha da porta mal fechada fazia-me tremer até aos ossos.

De repente ouvi passos na escada. O coração disparou — seria o Ricardo? Apertei os miúdos contra mim.

Mas era a Dona Lurdes, do terceiro esquerdo, de robe e chinelos.

— Marta? Que faz aqui a estas horas?

A vergonha queimou-me as faces. Tentei sorrir.

— Só preciso de um pouco de tempo…

Ela olhou para mim, depois para as crianças.

— Venha lá para dentro antes que fiquem todos doentes.

Na cozinha dela, o cheiro a chá de limão e bolachas deu-me uma estranha sensação de segurança. A Dona Lurdes não fez perguntas. Só me deu uma manta e pôs leite quente para os miúdos.

— Se precisar de falar, estou aqui — disse ela baixinho.

Fiquei ali sentada, ouvindo o tique-taque do relógio da parede e os miúdos a beberem o leite devagarinho. Pensei em tudo o que tinha deixado para trás: as fotografias na parede da sala, os brinquedos espalhados pelo chão, os sonhos de uma família feliz que nunca existiu de verdade.

A Dona Lurdes foi buscar um colchão velho e improvisou uma cama na sala para nós. Quando finalmente os miúdos adormeceram, sentei-me no chão encostada ao sofá e deixei as lágrimas correrem livres pela primeira vez naquela noite.

Lembrei-me da primeira vez que o Ricardo me bateu. Foi logo depois de termos casado, por causa de um jantar queimado. Pedi desculpa, ele chorou e prometeu nunca mais fazer aquilo. Acreditei nele porque queria acreditar. Porque tinha medo de ficar sozinha, porque toda a gente dizia que ele era um bom partido.

Mas depois vieram as palavras duras, os empurrões, as noites em claro à espera que ele chegasse bêbado e zangado com o mundo. E eu fui ficando cada vez mais pequena dentro daquela casa grande demais para tanta tristeza.

Na manhã seguinte, acordei com o sol a entrar pela janela da sala da Dona Lurdes. Os miúdos ainda dormiam enroscados um no outro. Levantei-me devagarinho e fui até à cozinha.

— Dormiu alguma coisa? — perguntou ela sem olhar para mim, mexendo o café.

Assenti com a cabeça.

— Não sei o que fazer agora… — confessei num sussurro.

Ela pousou a chávena na mesa e olhou-me nos olhos.

— Marta, ninguém merece viver com medo. Tem família?

Encolhi os ombros.

— A minha mãe acha que devo aguentar…

Ela suspirou.

— Então tem de ser por si e pelos seus filhos. Há associações que ajudam mulheres como você. Eu posso ajudar a procurar contactos.

Senti uma onda de gratidão misturada com vergonha por precisar tanto da bondade de uma quase desconhecida.

Durante o dia inteiro tentei ligar para linhas de apoio, mas estavam sempre ocupadas ou pediam para ligar mais tarde. O Ricardo mandou dezenas de mensagens: “Volta para casa”, “Estás a destruir a nossa família”, “Se não voltares nunca mais vês os miúdos”. Apaguei-as todas sem responder.

À noite, depois de adormecer os miúdos outra vez na sala da Dona Lurdes, sentei-me na varanda a olhar para as luzes da cidade. Lisboa parecia tão grande e tão indiferente à minha dor. Perguntei-me quantas mulheres estariam naquela noite escondidas em casas alheias, com medo do homem que jurou protegê-las.

No terceiro dia consegui falar com uma assistente social da APAV. Ela ouviu-me sem julgar e marcou uma reunião para o dia seguinte num local seguro. Disse-me que havia casas-abrigo onde podia ficar com os meus filhos até arranjar trabalho e uma casa só nossa.

Quando contei à Dona Lurdes ela sorriu pela primeira vez desde que nos acolheu.

— Vai correr tudo bem — disse ela, apertando-me as mãos nas dela.

Naquela noite sonhei com um futuro diferente: eu e os meus filhos numa casa pequena mas cheia de risos e paz. Acordei com esperança pela primeira vez em muito tempo.

No dia seguinte saímos cedo rumo ao desconhecido. A Dona Lurdes ficou à porta do prédio a acenar-nos com um lenço branco na mão.

Enquanto caminhava pelas ruas frias de Lisboa com os meus filhos pela mão, pensei em todas as mulheres que continuam presas ao medo porque ninguém lhes estende a mão. E perguntei-me: quantas Martas há nesta cidade? Quantas portas continuam fechadas quando alguém bate desesperado?

Será que algum dia vamos aprender a não virar costas à dor dos outros?