Deixou-me no nono mês de gravidez. Três anos depois, voltou a pedir perdão…
— Não podes fazer isto comigo, Miguel! Não agora… — gritei, sentindo as lágrimas queimarem-me o rosto enquanto ele arrastava a mala pelo corredor.
Ele não olhou para trás. Só disse, com aquela voz fria que nunca lhe conheci: — Desculpa, Rita. Não aguento mais. Preciso de sair daqui.
O som da porta a bater ecoou pela casa como um trovão. Fiquei ali, de pé, com uma mão na barriga enorme e a outra a segurar-me à parede para não cair. O nono mês de gravidez devia ser um tempo de esperança, mas para mim foi o início do maior pesadelo da minha vida.
Durante dias, recusei-me a acreditar que aquilo estava mesmo a acontecer. A minha mãe, Dona Teresa, apareceu logo no dia seguinte. — Filha, tens de ser forte. Por ti e pela bebé — disse ela, tentando esconder o medo nos olhos. Mas eu via-o. Toda a gente via. O escândalo espalhou-se pelo bairro como fogo em mato seco: “O Miguel deixou a Rita grávida!” As vizinhas cochichavam à janela, os amigos afastaram-se. Só restava eu e aquela criança que ainda nem tinha nascido.
O parto foi solitário. Lembro-me do cheiro do hospital de Santa Maria, das luzes brancas e do silêncio pesado na sala de partos. Quando a Matilde nasceu, chorei tanto que as enfermeiras pensaram que era de felicidade. Era medo. Medo de não conseguir ser mãe e pai ao mesmo tempo.
Os meses seguintes foram uma luta diária. O subsídio de maternidade mal dava para as fraldas e o leite. Voltei para casa da minha mãe, envergonhada, sentindo-me um fracasso. O meu pai, o senhor António, mal me falava — sempre foi homem de poucas palavras e muitos silêncios. Às vezes ouvia-o resmungar na cozinha: — Isto não é vida para ninguém…
A Matilde crescia saudável, mas eu sentia-me cada vez mais pequena. As noites eram longas e frias; as cólicas dela misturavam-se com o meu choro abafado na almofada. Tentei arranjar trabalho assim que pude — aceitei limpar escritórios à noite e fazer costuras para fora durante o dia. A minha mãe ficava com a Matilde, mas eu sentia culpa por não estar presente.
Um dia, ao buscar a Matilde ao infantário, encontrei a professora Ana a olhar para mim com pena: — Rita, já pensaste em procurar apoio psicológico? — perguntou baixinho. Senti vergonha. Apoio? Eu precisava era de dinheiro e de tempo! Mas à noite, sozinha na cama, dei por mim a pensar se estaria mesmo a enlouquecer.
Os anos passaram devagar. A Matilde fez três anos e começou a perguntar pelo pai. — Mamã, onde está o papá? — perguntava com aqueles olhos grandes e inocentes. Eu inventava histórias: — O papá está longe, filha…
Foi então que tudo mudou outra vez.
Numa tarde chuvosa de novembro, ouvi baterem à porta com força. Abri e vi o Miguel — mais magro, barba por fazer, olhos vermelhos como se não dormisse há dias.
— Rita… preciso falar contigo — disse ele, quase sussurrando.
O meu coração disparou. Senti raiva, medo e uma pontinha de esperança que me envergonhou.
— O que é que queres? — perguntei seca.
Ele entrou sem pedir licença. Sentou-se à mesa da cozinha como se nunca tivesse saído dali. A minha mãe apareceu à porta e ficou a ouvir em silêncio.
— Rita… Eu errei. Fugi porque estava assustado. Não sabia lidar com a responsabilidade… Mas nunca deixei de pensar em ti e na Matilde. Por favor… deixa-me voltar para casa.
Senti vontade de gritar, de lhe bater, de o expulsar dali para sempre. Mas fiquei calada. Olhei para ele e vi um homem destruído — não o Miguel confiante com quem casei.
— Achas que podes simplesmente voltar como se nada fosse? Três anos! Três anos sozinha! Sabes o que é acordar todas as noites com medo? Sabes o que é ouvir a tua filha perguntar pelo pai todos os dias?
Ele chorou. Pela primeira vez vi-o realmente arrependido.
— Sei que não mereço perdão… Mas quero tentar ser pai da Matilde. Quero ajudar-te…
A minha mãe interveio: — Rita, pensa bem. Não é só sobre ti agora…
Passei noites sem dormir depois disso. O Miguel começou a aparecer todos os dias — levava a Matilde ao parque, trazia-lhe brinquedos baratos mas escolhidos com carinho. Ela adorava-o; eu sentia ciúmes da facilidade com que ele conquistava o amor dela.
A família dividiu-se: o meu pai recusava-se a falar com ele; a minha mãe dizia que todos merecem uma segunda oportunidade; os meus irmãos achavam que eu devia seguir em frente sem olhar para trás.
Uma noite sentei-me com o Miguel na varanda.
— Porque voltaste mesmo? — perguntei.
Ele olhou-me nos olhos: — Porque percebi que fugi da única coisa que realmente importava na vida: vocês.
Chorei tudo o que tinha guardado durante três anos.
Hoje continuo sem saber se fiz bem em deixá-lo aproximar-se da Matilde outra vez. O medo de ele voltar a fugir nunca desaparece completamente. Mas vejo-os juntos e penso se não será essa a família que ela merece ter.
Será possível perdoar quem nos destruiu? Ou será que há feridas que nunca saram? E vocês… já tiveram de escolher entre o perdão e o orgulho?