Todos os Dias Cozinho para o Rui: Quando é que Basta?
— Outra vez arroz, Susana? — O tom do Rui ecoou pela cozinha, misturando-se com o cheiro do refogado que ainda pairava no ar. Senti o peito apertar, como se cada palavra dele fosse mais um peso sobre os meus ombros já cansados.
— Não tive tempo para mais, Rui. Saí tarde do trabalho e ainda fui buscar a Mariana à escola — respondi, tentando controlar a voz para não tremer. Ele nem olhou para mim, já de olhos postos no telemóvel, como se eu fosse apenas mais um eletrodoméstico da casa.
Todos os dias são iguais. Acordo antes do sol nascer, preparo o pequeno-almoço, faço as lancheiras, despacho a Mariana e o Tiago para a escola e corro para o autocarro que me leva ao escritório. O dia passa num ápice de e-mails, reuniões e telefonemas. Mas a verdadeira maratona começa quando chego a casa: tirar carne do congelador, descascar batatas, cortar cebolas — tudo para garantir que o jantar está pronto antes das oito.
O Rui nunca gostou de comida aquecida. “Comida boa é comida feita na hora”, dizia ele desde os tempos em que namorávamos. No início, achei graça. Era sinal de que valorizava a tradição, como a minha mãe sempre fez. Mas agora, passados treze anos de casamento, sinto-me prisioneira dessa tradição.
Lembro-me de uma noite em particular, há uns meses. Estava exausta, com febre e dores no corpo. Pedi-lhe para pedir uma pizza ou aquecer o resto do jantar do dia anterior. Ele olhou-me com desdém:
— Se não consegues cozinhar, Susana, não sei para que é que serve esta casa.
Chorei em silêncio nessa noite, encolhida na casa de banho para não acordar as crianças. Senti-me tão sozinha como nunca antes.
A minha mãe sempre me disse que o casamento era feito de sacrifícios. “Aguenta, filha. Os homens são assim mesmo.” Mas será? Será que todas as mulheres portuguesas vivem assim? Ou sou só eu que me deixei engolir por esta rotina sem fim?
No trabalho, a minha colega Filipa fala-me das viagens que faz com o marido. “Fomos ao Douro no fim-de-semana! Nem cozinhei uma única vez!” — diz ela, rindo-se. Sinto inveja dessa leveza. Quando foi a última vez que fiz algo só para mim?
Uma sexta-feira à noite, tentei conversar com o Rui depois de deitarmos as crianças.
— Rui, preciso de falar contigo.
Ele suspirou, pousando finalmente o telemóvel.
— O que foi agora?
— Sinto-me cansada… Sinto que faço tudo sozinha aqui em casa. Podias ajudar mais, ou pelo menos não reclamar tanto da comida…
Ele levantou-se abruptamente.
— Se não gostas da tua vida, muda-a! Eu trabalho o dia todo também! Queres que coma comida requentada como um cão?
As palavras dele cortaram-me como facas. Fiquei ali sentada, sozinha na sala, a ouvir o som da televisão vindo do quarto.
No sábado seguinte, decidi não cozinhar. Preparei sandes para todos ao almoço e disse às crianças que íamos ao parque à tarde. O Rui ficou furioso.
— Isto é almoço de gente? — gritou ele.
— É o que há hoje — respondi, tentando parecer firme.
Ele saiu de casa batendo com a porta. As crianças olharam para mim assustadas. Abracei-os e tentei sorrir.
No parque, vi outras mães sentadas nos bancos a conversar animadamente enquanto os filhos brincavam. Senti uma pontada de tristeza e inveja. Porque é que eu não conseguia ser assim?
À noite, quando o Rui voltou, ignorou-me completamente. Durante dias falou comigo apenas o indispensável. O silêncio era pesado e frio.
Comecei a escrever num caderno todas as noites antes de dormir. Escrevia sobre os meus sonhos antigos: queria ser professora de literatura, viajar até Itália, aprender a pintar. Onde ficaram esses sonhos?
Uma tarde, a Mariana entrou na cozinha enquanto eu chorava baixinho sobre a tábua de cortar legumes.
— Mãe… estás triste?
Limpei as lágrimas rapidamente.
— Não filha… só estou cansada.
Ela abraçou-me com força.
— Eu ajudo-te a cortar as cenouras!
O gesto dela aqueceu-me o coração e fez-me perceber que estava a dar um exemplo errado aos meus filhos: uma mãe submissa e infeliz.
Na semana seguinte, tomei uma decisão difícil: marquei uma consulta com uma psicóloga no centro de saúde da freguesia. Falei-lhe da minha rotina sufocante, do cansaço crónico e da solidão dentro do meu próprio casamento.
— Susana, tem de começar a cuidar de si — disse ela com doçura. — Se não cuidar de si própria, ninguém vai fazê-lo por si.
Saí daquela consulta com uma mistura de medo e esperança. Comecei a impor pequenos limites: um dia por semana não cozinho; outro dia peço ao Rui para ir buscar jantar fora; envolvo as crianças nas tarefas domésticas.
O Rui resiste. Reclama, faz birra como uma criança grande. Mas eu mantenho-me firme.
Uma noite, depois de um jantar simples de sopa e pão, sentei-me à mesa com ele.
— Rui, isto não pode continuar assim. Ou mudamos juntos ou… não sei se consigo continuar neste casamento.
Ele olhou-me nos olhos pela primeira vez em muito tempo. Vi surpresa e medo no seu olhar.
— Estás a falar a sério?
— Estou cansada de viver só para agradar aos outros e esquecer-me de mim própria.
Houve silêncio durante longos minutos. Depois ele levantou-se e saiu da sala sem dizer palavra.
Nos dias seguintes, notei pequenas mudanças: começou a levantar-se da mesa sem reclamar; um dia até lavou os pratos sem eu pedir. Não é perfeito — longe disso — mas talvez seja um começo.
Hoje escrevo estas palavras sentada na varanda enquanto as crianças brincam no jardim. Sinto uma leveza nova dentro do peito. Sei que ainda tenho um longo caminho pela frente — mas pela primeira vez em muitos anos sinto esperança.
Pergunto-me: quantas mulheres portuguesas vivem presas nesta rotina invisível? Quantas se esquecem de si próprias em nome da família? E vocês… até onde iriam para recuperar a vossa voz?