Porque é que sou sempre eu a pagar? – Confissões de uma mulher sobre amor, dinheiro e limites
— Outra vez, Mariana? Vais mesmo pagar tu o jantar? — A voz da minha mãe ecoava no telefone, carregada de preocupação e de um certo desdém que só as mães portuguesas sabem usar.
Suspirei, olhando para o talão do restaurante que ainda tinha na mão. O Rui estava na casa de banho, como sempre fazia quando chegava a conta. — Mãe, não comeces. Ele esqueceu-se da carteira, pronto. — Tentei soar convincente, mas nem eu acreditava no que dizia.
A verdade é que não era a primeira vez. Nem a segunda. Já perdi a conta às vezes em que fui eu a pagar: jantares, viagens, até as contas da casa. No início, parecia normal — uma vez eu, outra vez ele. Mas com o tempo, fui percebendo que “outra vez eu” era sempre eu.
Conheci o Rui numa noite de verão em Lisboa. Ele fazia-me rir como ninguém e tinha aquele charme desleixado dos tipos que parecem não se preocupar com nada. Apaixonei-me por essa leveza, por essa promessa de liberdade. Mas agora, anos depois, sinto-me presa a uma rotina de contas por pagar e silêncios desconfortáveis.
— Mariana, tu não vês que ele está a aproveitar-se? — insistia a minha mãe. — O teu pai nunca me deixou pagar nada! —
— Os tempos são outros, mãe. — Respondi, mas a verdade é que aquela frase ficou-me a martelar na cabeça.
Quando o Rui voltou à mesa, sorriu como se nada fosse. — Pronto, vamos? — perguntou, pegando no casaco.
No caminho para casa, tentei puxar conversa:
— Rui, achas que devíamos dividir mais as despesas?
Ele encolheu os ombros. — Sabes que este mês estou apertado… Mas para o mês que vem compenso.
Era sempre para o mês que vem.
Em casa, sentei-me no sofá e olhei para as contas acumuladas na mesa da sala: luz, água, renda. Todas pagas por mim. O Rui estava desempregado há quase um ano. No início, apoiei-o em tudo: ajudei com currículos, fui paciente nas entrevistas falhadas. Mas agora sentia-me cansada. E sozinha.
A minha irmã Inês dizia-me muitas vezes:
— Mariana, tu mereces alguém que te trate como prioridade. Não como carteira.
Mas como é que se larga alguém de quem ainda se gosta? Como é que se diz basta quando ainda há amor?
Uma noite, depois de mais uma discussão sobre dinheiro — porque até o supermercado já era só comigo — o Rui saiu porta fora e bateu com a porta com força.
Fiquei sozinha na sala escura. Lembrei-me do início: dos passeios à beira-rio, das conversas até de madrugada. Onde é que tudo se perdeu?
No dia seguinte, acordei com uma mensagem dele: “Desculpa por ontem. Amo-te.” Senti um nó na garganta. O amor não devia doer assim.
No trabalho, a minha chefe reparou no meu ar cansado:
— Está tudo bem em casa?
Quase chorei ali mesmo. Disse-lhe que sim, mas ela não acreditou.
À noite, o Rui voltou com um ramo de flores baratas do supermercado.
— Trouxe-te isto. — Disse, meio envergonhado.
Olhei para ele e perguntei:
— Rui, achas mesmo justo tudo isto? Eu pago tudo e tu…
Ele interrompeu-me:
— Achas que eu gosto disto? Achas que não me sinto homem por não conseguir contribuir?
Ficámos em silêncio. Pela primeira vez vi tristeza nos olhos dele. Mas também vi comodismo.
Os dias passaram e nada mudou. Continuei a pagar tudo. Continuei a sentir-me usada.
Um domingo à tarde, fui almoçar a casa dos meus pais. A minha mãe serviu-me sopa e olhou-me nos olhos:
— Filha, tu não tens de carregar o mundo às costas sozinha.
Chorei ali mesmo, na cozinha da minha infância.
Na semana seguinte, tomei uma decisão difícil: pedi ao Rui para sair de casa.
— Não aguento mais ser sempre eu a segurar tudo. Preciso de respirar.
Ele ficou calado durante muito tempo. Depois arrumou as coisas em silêncio e saiu sem olhar para trás.
Nos dias seguintes senti um vazio enorme. Mas também uma leveza nova.
Agora sento-me sozinha à mesa do pequeno-almoço e penso: será que fiz bem? Será que o amor justifica tudo?
E vocês? Até onde iriam por amor? Onde traçam a vossa linha entre dar e ser aproveitado?