Todos os Dias Cozinho para o Miguel: Quando é que Basta?
— Susana, o jantar está quase pronto? — ouço a voz do Miguel ecoar da sala, impaciente, como sempre. O cheiro do refogado já se espalha pela casa, mas sinto o suor escorrer-me pelas têmporas. São quase oito da noite e ainda nem tirei o casaco. O trânsito estava impossível, a chefe pediu-me para ficar mais meia hora, e mesmo assim corri para apanhar o autocarro, só para chegar a tempo de cozinhar.
Pouso as compras em cima da bancada e olho para as minhas mãos trémulas. Quantas vezes já repeti este ritual? Todos os dias, há mais de dez anos. Miguel não come nada que não seja feito na hora. “Comida aquecida é para quem não se importa consigo próprio”, diz ele, como se fosse uma verdade universal. No início, achei graça à sua exigência. Agora, sinto-me prisioneira dela.
— Já vou, Miguel! — respondo, tentando não deixar transparecer o cansaço na voz.
Ele entra na cozinha, camisa impecável, olhar crítico. — O arroz está muito branco. Não puseste cenoura outra vez?
Respiro fundo. — Não tive tempo. O supermercado estava cheio e…
— Susana, já falámos sobre isto. Gosto do arroz como a minha mãe fazia. Não é assim tão difícil.
A referência à sogra é uma faca afiada. Lembro-me das primeiras vezes em casa dela, a ouvir elogios ao tempero, à dedicação. Senti-me pequena, mas prometi a mim mesma que faria melhor. Agora, percebo que nunca será suficiente.
Miguel senta-se à mesa, pega no telemóvel e começa a ver as notícias. Eu continuo a mexer o tacho, mas por dentro estou a ferver. Sinto-me invisível, como se fosse apenas um par de mãos que cozinha e limpa.
A Leonor, a nossa filha de oito anos, entra na cozinha de meias sujas e cabelo despenteado.
— Mãe, posso comer uma bolacha antes do jantar?
Miguel levanta os olhos do telemóvel. — Não estragues o apetite! A tua mãe está a cozinhar.
Leonor faz beicinho e sai. Sinto uma pontada de culpa. Será que ela vai crescer a achar que o amor se mede em pratos quentes?
O jantar decorre em silêncio. Miguel come devagar, inspecionando cada garfada. Leonor brinca com a comida. Eu quase não provo nada.
Depois de arrumar tudo, sento-me no sofá com um chá morno. Miguel já foi para o escritório ver futebol na televisão do computador. Leonor faz os trabalhos de casa sozinha.
Olho para as minhas mãos: pele seca, unhas curtas, pequenas queimaduras dos salpicos de óleo. Quando foi a última vez que fiz algo só para mim? Nem me lembro.
No trabalho, sou assistente administrativa numa clínica dentária. Os colegas acham-me simpática e prestável. Mas ninguém sabe que todos os dias corro contra o tempo para cumprir um papel que nunca pedi: a mulher perfeita.
No domingo passado, tentei conversar com Miguel.
— Achas que podíamos pedir comida de fora uma vez por semana? Só para variar…
Ele olhou-me como se eu tivesse sugerido um crime.
— Não gastamos dinheiro nessas porcarias. E tu cozinhas tão bem! Para quê mudar?
Fiquei sem resposta. Não era elogio; era prisão.
Às vezes invejo a minha irmã Marta. Ela divorciou-se há dois anos e diz que nunca esteve tão feliz. Vive num T1 pequeno em Almada com o filho adolescente e jantam sandes ou sopa quando lhes apetece.
— Susana, tu tens de pensar em ti — disse ela na última vez que nos vimos no café da esquina. — O Miguel não vai mudar.
— Mas ele não é má pessoa… Só tem as suas manias — tentei justificar.
Ela sorriu com tristeza. — E tu? Não tens direito às tuas manias?
Naquela noite chorei baixinho na casa de banho para não acordar ninguém.
Hoje foi pior do que o costume. Cheguei atrasada ao trabalho porque Leonor perdeu o autocarro escolar e tive de levá-la à pressa. A chefe olhou-me de lado e disse: “Susana, precisamos de mais compromisso.” Senti vontade de gritar: “Compromisso? Eu dou tudo de mim!” Mas calei-me.
Ao chegar a casa, Miguel estava sentado à mesa com uma expressão fechada.
— O arroz está queimado — disse ele sem levantar os olhos do prato.
Senti um nó na garganta.
— Estou cansada, Miguel. Preciso de ajuda.
Ele encolheu os ombros.
— Eu trabalho muito também. Cada um tem as suas tarefas.
Levantei-me abruptamente e fui fechar-me no quarto. Ouvi Leonor perguntar baixinho:
— Mãe está triste?
Miguel respondeu: — Está cansada, só isso.
Mas eu sabia que era mais do que cansaço. Era solidão.
Naquela noite sonhei com uma casa vazia e silenciosa onde eu podia ouvir os meus próprios pensamentos sem pressa nem cobranças.
No dia seguinte acordei antes do despertador. Fiquei deitada a olhar para o teto branco e frio do quarto. Pensei em fugir. Só por um dia. Ir até à praia da Costa da Caparica, sentir o vento no rosto, comer um pastel de nata sozinha num café qualquer.
Mas levantei-me e fui fazer o pequeno-almoço como sempre.
No trabalho, Marta ligou-me:
— Susana, vem jantar cá hoje. Faço massa com atum e salada. Nada complicado.
Quase disse que não podia, mas ouvi a minha própria voz responder:
— Vou sim.
Miguel ficou incrédulo quando lhe disse ao telefone:
— Hoje não janto em casa. Vou à Marta.
— E eu? O que vou comer?
— Fazes uma omelete ou pedes uma pizza — respondi antes de desligar.
Na casa da Marta senti-me leve pela primeira vez em anos. Rimos das nossas desgraças e falámos dos sonhos antigos: viajar até ao Gerês, aprender italiano, fazer voluntariado num canil.
Quando voltei para casa já passava das onze. Miguel estava no sofá com cara fechada.
— Isto agora vai ser sempre assim?
Olhei-o nos olhos pela primeira vez em muito tempo.
— Não sei, Miguel. Mas preciso de mudar alguma coisa antes que desapareça completamente.
Ele ficou calado. Fui deitar-me sem dizer mais nada.
Nos dias seguintes comecei a sair mais cedo do trabalho para passear sozinha pelo bairro antes de ir para casa. Comprei um livro novo e li-o inteiro numa semana — coisa que não fazia desde a universidade.
Miguel resmungava cada vez que chegava tarde ou fazia um jantar simples: sopa e pão ou salada fria. Mas eu já não pedia desculpa.
Leonor começou a ajudar-me na cozinha e até inventámos receitas juntas: panquecas ao sábado de manhã, salada colorida ao domingo à noite.
Um dia sentei-me com Miguel à mesa depois do jantar e disse-lhe:
— Preciso de sentir que sou mais do que isto aqui na cozinha. Quero voltar a estudar ou mudar de emprego. Quero viajar com a Leonor nas férias sem ter de pedir autorização para tudo.
Ele ficou em silêncio durante muito tempo antes de responder:
— Não sei se consigo viver assim…
Senti medo mas também alívio. Pela primeira vez em muitos anos estava disposta a arriscar perder tudo para me encontrar outra vez.
Agora escrevo estas linhas sentada no café da esquina enquanto espero pela Marta para irmos ao cinema juntas. Miguel ainda resiste às mudanças mas já percebeu que não vou voltar atrás tão facilmente.
Pergunto-me: quantas mulheres vivem presas numa rotina invisível como eu vivi? Quantas vezes deixamos de existir para agradar aos outros? Será possível amar alguém sem nos perdermos pelo caminho?