O Último Abraço à Beira do Tejo: As Palavras do Meu Irmão Que Ecoam Para Sempre

— Mariana, espera! — ouvi a voz do Tiago atrás de mim, ofegante, enquanto corríamos pela margem do Tejo, o céu de Lisboa tingido de um laranja quase irreal. O vento frio de março cortava-me a cara, mas eu ria, sentindo-me invencível, como só as crianças sabem sentir.

— Se me apanhares, dou-te o meu chocolate! — gritei, olhando por cima do ombro, vendo o sorriso largo do Tiago, os caracóis castanhos a saltarem-lhe na testa.

A nossa mãe gritava ao longe:

— Meninos! Não se afastem tanto! O rio não perdoa!

Mas nós não ouvíamos. Ou melhor, fingíamos não ouvir. Crescer em Alfama era assim: as ruas estreitas, os vizinhos a espreitar das janelas, o cheiro a sardinha assada e o Tejo sempre ali, a prometer aventuras e perigos.

Nesse dia, tudo parecia igual. Mas não era. O Tiago estava estranho desde manhã. Tinha os olhos inchados e evitava-me o olhar. Quando lhe perguntei se estava tudo bem, encolheu os ombros:

— Não é nada. Coisas da escola.

Mas eu sabia que era mais do que isso. O nosso pai tinha saído de casa há três semanas e desde então a nossa mãe andava com olheiras fundas e o rádio desligado. O silêncio pesava mais do que qualquer discussão.

Corremos até ao cais velho, onde as gaivotas pousavam sem medo. O Tiago parou de repente, ofegante. Eu virei-me para ele:

— Então? Desistes?

Ele sorriu de lado, mas os olhos estavam molhados.

— Mariana… — começou ele, a voz trémula — Se eu desaparecesse… tu tinhas saudades minhas?

Fiquei sem saber o que dizer. Ri-me, nervosa:

— Que parvoíce! Porque é que ias desaparecer?

Ele olhou para o rio, os olhos perdidos no horizonte.

— Às vezes penso que ninguém ia notar se eu deixasse de estar aqui.

Senti um aperto no peito. Aproximei-me dele e dei-lhe um empurrão leve.

— Não digas disparates! Eu dava logo pela tua falta. E a mãe também.

Ele sorriu, mas não respondeu. Ficámos ali em silêncio, só o som da água e das gaivotas a preencher o ar.

De repente, ouviu-se um estrondo — uma prancha solta do cais cedeu sob os pés do Tiago. Tudo aconteceu tão depressa: um grito abafado, o corpo dele a cair na água gelada, os meus gritos a ecoar pela margem.

— Tiago! Tiago!

Corri para a beira do cais, ajoelhei-me e estendi-lhe a mão. Vi-o a lutar contra a corrente, os olhos arregalados de medo.

— Mariana! Ajuda-me!

Tentei agarrá-lo, mas ele escorregava-me entre os dedos. O coração batia-me tão depressa que pensei que ia desmaiar. Gritei pela minha mãe:

— Mãe! O Tiago caiu!

Ela apareceu a correr, tropeçando nas pedras, o rosto desfeito em pânico.

— Tiago! Aguenta-te! — gritava ela.

Mas o rio era mais forte. Vi o braço do Tiago desaparecer debaixo da água, as bolhas a subirem à superfície. Depois… silêncio. Só o som do meu choro e da minha mãe ajoelhada ao meu lado, a chamar por ele como se a voz pudesse trazê-lo de volta.

Os bombeiros chegaram tarde demais. Procuraram durante horas, mas só encontraram o boné azul do Tiago preso numa rocha.

A partir desse dia, nada voltou a ser igual em nossa casa. A minha mãe fechou-se num silêncio pesado; eu deixei de brincar na rua. Os vizinhos cochichavam quando passávamos:

— Pobrezinha da Mariana… perdeu o irmão tão nova…

À noite, ouvia a minha mãe chorar baixinho no quarto ao lado. Eu encolhia-me na cama e tapava os ouvidos, mas as palavras do Tiago ecoavam na minha cabeça:

“Se eu desaparecesse… tu tinhas saudades minhas?”

Comecei a culpar-me por tudo. Porque é que não lhe agarrei mais forte? Porque é que não ouvi a minha mãe quando ela disse para não nos afastarmos? Porque é que não percebi que ele estava tão triste?

Na escola, os colegas olhavam para mim com pena ou evitavam-me. A professora tentou falar comigo:

— Mariana, se precisares de conversar…

Mas eu só queria esquecer. Só queria voltar atrás no tempo.

O tempo passou devagar. A minha mãe perdeu o emprego; as contas começaram a acumular-se na mesa da cozinha. Um dia ouvi-a ao telefone:

— Não sei como vou pagar isto tudo sozinha… — soluçava ela.

O meu pai apareceu no funeral do Tiago, mas foi embora antes sequer de me olhar nos olhos. Nunca mais voltou.

Houve dias em que pensei em ir ter com o Tiago ao fundo do rio. Mas depois lembrava-me do sorriso dele e das brincadeiras e agarrava-me à memória como quem se agarra a uma tábua no meio da tempestade.

Anos depois, ainda sonho com aquele dia à beira do Tejo. Ainda sinto o frio da água nas mãos quando tentei puxá-lo para cima. Ainda ouço as últimas palavras dele como se fossem sussurradas ao meu ouvido todas as noites.

Hoje sou adulta e vivo sozinha num pequeno apartamento em Lisboa. Trabalho numa livraria perto da Sé e todos os dias passo pelo rio antes de ir para casa. Às vezes paro na mesma margem onde tudo aconteceu e fecho os olhos.

Pergunto-me: será que alguma vez vou conseguir perdoar-me? Será que algum dia vou conseguir responder ao Tiago que sim — que tenho saudades dele todos os dias?

E vocês? Já sentiram esse peso da culpa ou da saudade? Como se aprende a viver com um vazio assim?