Verão na Casa da Avó Nora: Entre Amores e Desavenças

— Não vais comer mais um pouco, Leonor? — a voz da minha avó Nora tremia levemente, misturando preocupação e uma pontinha de mágoa.

Eu olhava para o prato de arroz de pato, o cheiro a encher a cozinha pequena, as paredes cobertas de azulejos antigos. O relógio de cuco marcava as horas com um som que me parecia cada vez mais pesado. Sentia o olhar dela sobre mim, esperando que eu dissesse sim, que aceitasse mais uma colherada, como fazia quando era pequena. Mas agora tinha onze anos e o verão parecia diferente.

— Não tenho fome, avó — murmurei, mexendo no arroz com o garfo.

Ela suspirou. — A tua mãe disse que ias passar mais tempo comigo este ano. Mas parece que a casa da avó Vitória é mais interessante…

O silêncio caiu entre nós como uma cortina. Oiço os passos da minha mãe no corredor, a voz dela abafada ao telefone. Sei que está a tentar agradar às duas mães — à dela, Nora, e à sogra, Vitória. Mas há sempre uma tensão no ar, como se cada visita fosse uma escolha entre lados.

A avó Vitória mora na cidade, num apartamento moderno com elevador e varanda cheia de flores. Tem sempre presentes para mim e para o meu irmão Tiago: livros novos, jogos eletrónicos, até roupa de marca. Quando lá vamos, sinto-me importante, como se fosse alguém especial. Mas na casa da avó Nora, em Vila Nova de Poiares, tudo é diferente: o cheiro a terra molhada, o som dos galos ao amanhecer, os bolos feitos à mão e as histórias antigas contadas à lareira.

— Leonor, anda cá ajudar-me com as cerejas — chama a avó Nora do quintal.

Vou contrariada. O sol está forte e o cheiro das árvores mistura-se com o das galinhas. Ela estende-me um cesto e começamos a apanhar cerejas em silêncio. Sinto que ela quer falar, mas não sabe como.

— Sabes, quando eras pequena, passavas aqui todos os verões — diz ela finalmente. — Agora parece que já não gostas tanto disto.

Mordo o lábio. Não sei o que responder. Gosto da casa dela, mas também gosto da cidade. Gosto das duas avós, mas sinto-me dividida.

No domingo seguinte, a mãe chega com o carro cheio de malas. — Vamos passar uns dias à casa da avó Vitória — anuncia.

Vejo o rosto da avó Nora endurecer por um segundo antes de forçar um sorriso. — Claro, filha. Aproveitem bem.

No caminho para Coimbra, o meu irmão Tiago não para de falar dos jogos novos que vai experimentar. Eu olho pela janela e penso na avó Nora sozinha na casa grande, a preparar bolos que ninguém vai comer.

Na casa da avó Vitória tudo é diferente: há televisão em todos os quartos, gelados no congelador e festas com os vizinhos. Ela fala alto, ri muito e faz questão de dizer à minha mãe como somos bem comportados.

— A Leonor está tão crescida! — diz ela aos amigos. — E tão inteligente! Deve ser dos genes do lado do pai…

Sinto um aperto no peito. A avó Nora nunca fala assim de mim em público; elogia-me baixinho, só para mim ouvir.

Uma noite ouço os meus pais a discutir baixinho na cozinha:

— A minha mãe sente-se posta de parte — diz a mãe.
— A tua mãe tem de perceber que não pode controlar tudo — responde o pai. — A minha mãe também tem direito aos netos.

Fico acordada até tarde a pensar nisto. Porque é que as pessoas que mais me amam parecem estar sempre em competição?

Quando voltamos à aldeia, a avó Nora está diferente: mais calada, mais cansada. Passa horas no jardim ou sentada à janela a tricotar. Um dia apanho-a a chorar baixinho na cozinha.

— Avó? — pergunto baixinho.

Ela limpa as lágrimas depressa. — Não é nada, querida. São coisas da idade…

Mas eu sei que não é só isso. Sento-me ao lado dela e ficamos ali em silêncio.

No final do verão há uma festa na aldeia. A avó Nora faz questão de me levar ao baile popular. Dançamos juntas ao som do rancho folclórico e por um momento esqueço tudo: as discussões dos adultos, as comparações entre avós, as viagens entre casas.

No regresso a casa ela aperta-me a mão:

— Sabes, Leonor… O amor não se mede em presentes nem em tempo contado ao minuto. O amor sente-se aqui — aponta para o peito — mesmo quando estamos longe.

Choro baixinho no escuro do quarto naquela noite. Percebo que nunca vou conseguir dividir-me em duas sem magoar alguém.

O verão acaba e regressamos à cidade para começar as aulas. A avó Nora telefona todos os domingos; às vezes só para ouvir a minha voz.

Agora sou eu que lhe conto histórias: das aulas, dos amigos novos, das saudades que tenho do cheiro do bolo acabado de fazer.

Às vezes pergunto-me: será que algum dia vou conseguir retribuir todo o amor que recebi? Ou será que estamos todos condenados a competir pelo afeto uns dos outros?

E vocês? Já sentiram esta luta silenciosa entre quem vos ama? Como se escolhe sem magoar?