Nunca Entendi Por Que a Minha Mãe Gostava Tanto de Cozinhar Para o Meu Marido: Numa Noite, Descobri
— Por que é que tens de fazer sempre o arroz de pato para o Miguel? — perguntei, tentando manter a voz firme, mas sentindo o nó na garganta. A minha mãe nem levantou os olhos do tacho, mexendo com aquela paciência que só ela tinha. — Porque ele gosta, filha. E tu sabes que eu gosto de ver as pessoas felizes à mesa.
Mas eu não estava feliz. Nunca estive verdadeiramente feliz desde que casei com o Miguel. Não era culpa dele, nem minha — pelo menos era isso que eu repetia para mim mesma. Sempre sonhei em viajar, conhecer o mundo, perder-me nas ruas de cidades desconhecidas, provar sabores exóticos. Mas em vez disso, estava ali, numa cozinha abafada em Coimbra, a ver a minha mãe cozinhar para o meu marido como se fosse ele o filho dela.
O Miguel era simpático, trabalhador, e toda a gente dizia que eu tinha tido sorte. Mas eu sentia-me presa. O nosso casamento foi mais uma consequência do que um sonho realizado. Ele queria estabilidade, filhos, uma casa com jardim e domingos em família. Eu queria aeroportos e passaportes cheios de carimbos.
A minha mãe sempre foi o pilar da família. Depois do meu pai ter morrido — eu tinha 14 anos — ela nunca mais olhou para outro homem. Dizia que o amor da vida dela tinha partido e que agora só vivia para mim. Talvez por isso me tenha custado tanto ver como ela se dedicava ao Miguel. Era como se ele tivesse ocupado um espaço que devia ser só meu.
— Filha, podes pôr a mesa? — pediu ela, com aquele sorriso cansado.
Fui buscar os pratos antigos, aqueles que só usávamos em ocasiões especiais. Senti uma pontada de raiva: porque é que hoje era especial? Era só mais um jantar de terça-feira.
O Miguel chegou pouco depois das oito. Trazia flores para a minha mãe — nunca para mim. Abraçou-a com força e agradeceu-lhe pelo jantar antes mesmo de me cumprimentar.
— O cheiro está maravilhoso, D. Teresa! — disse ele, sorrindo como um miúdo.
— Fiz o teu prato preferido — respondeu ela, orgulhosa.
Sentei-me à mesa sem vontade de comer. A conversa fluiu entre eles como se fossem velhos amigos. Riam-se das mesmas piadas, lembravam-se de histórias antigas da aldeia onde a minha mãe crescera. Eu sentia-me invisível.
Depois do jantar, fui arrumar a cozinha sozinha. Ouvi-os na sala a conversar baixinho. O Miguel ria-se baixo; a minha mãe falava num tom doce que eu já não ouvia há anos.
Naquela noite, não consegui dormir. O Miguel adormeceu ao meu lado como se nada fosse. Fiquei a olhar para o teto, a cabeça cheia de perguntas sem resposta.
Os dias passaram e aquela sensação de desconforto cresceu dentro de mim. Comecei a reparar em pequenos gestos: o Miguel elogiava sempre a comida da minha mãe, mas nunca dizia nada sobre os meus cozinhados apressados; ela arranjava sempre maneira de o convidar para almoçar quando eu estava no trabalho; trocavam mensagens sobre receitas e ingredientes.
Uma noite, cheguei mais cedo do trabalho. Entrei em casa sem fazer barulho e ouvi vozes vindas da cozinha.
— Não devias fazer isto… — disse o Miguel, num tom estranho.
— Eu só quero ajudar — respondeu a minha mãe, quase num sussurro.
Aproximei-me devagar e vi-os juntos junto ao fogão. Ela segurava-lhe na mão; ele olhava-a nos olhos com uma intensidade que nunca vi dirigida a mim.
— Se a Ana descobrir… — começou ele.
— Ela não vai descobrir — interrompeu ela, pousando a mão no rosto dele.
Senti o chão fugir-me dos pés. Afastei-me antes que me vissem e saí de casa sem rumo. Andei pelas ruas frias de Coimbra até as pernas me doerem. Chorei como não chorava desde criança.
Quando voltei, já passava da meia-noite. O Miguel estava à minha espera na sala.
— Onde estiveste? Estávamos preocupados! — disse ele, tentando abraçar-me.
Afastei-o com um gesto brusco.
— O que é que se passa entre ti e a minha mãe? — perguntei, a voz trémula.
Ele ficou pálido.
— Não é nada do que estás a pensar…
— Então explica-me! Porque é que ela te trata como se fosses o filho dela? Porque é que tu lhe dás tanta atenção?
Ele hesitou antes de responder:
— A tua mãe sente-se sozinha desde que o teu pai morreu. Eu só tento ajudá-la… E ela ajuda-me também. Sabes que eu nunca tive uma mãe presente…
— Isso não justifica nada! — gritei.
A minha mãe apareceu à porta da sala, os olhos vermelhos.
— Ana… desculpa… Eu só queria sentir-me útil outra vez. O Miguel faz-me lembrar o teu pai… E tu estás sempre tão distante…
Fiquei sem palavras. Senti raiva, tristeza e culpa ao mesmo tempo. Será que fui eu que me afastei? Será que eles só procuravam consolo um no outro?
Durante semanas mal nos falámos. O Miguel dormiu no sofá; a minha mãe evitava olhar-me nos olhos.
Um dia, sentei-me com ela na cozinha.
— Mãe… porque é que nunca me disseste como te sentias?
Ela chorou baixinho enquanto me contava tudo: a solidão, as saudades do meu pai, o medo de envelhecer sozinha. Disse-me que nunca quis magoar-me, mas precisava sentir-se viva outra vez.
O Miguel pediu desculpa por ter criado confusão entre nós. Disse-me que me amava, mas percebia agora que talvez não fosse suficiente para mim.
Decidi separar-me dele. Precisava reencontrar-me e descobrir quem era sem aquela família desfeita à minha volta.
A minha mãe mudou-se para casa da minha tia em Aveiro; eu fiquei sozinha no apartamento durante meses. Aos poucos comecei a viajar: Paris, Roma, Barcelona… Em cada cidade deixei um pedaço da dor e trouxe um pouco mais de mim mesma de volta.
Hoje olho para trás e pergunto-me: será que alguma vez conhecemos verdadeiramente as pessoas que amamos? Ou será que todos escondemos segredos à espera do momento certo para virem ao de cima?
E vocês? Já sentiram que estavam a viver uma vida que não era vossa?