Sofá “Sonho” – uma história de amor, solidão e crescimento
— Não percebes mesmo, pois não, Marco? — perguntei, com a voz a tremer, sentada no sofá “Sonho”, aquele velho sofá azul que comprámos juntos no nosso primeiro apartamento em Almada. Ele olhou para mim, cansado, os olhos semicerrados, como se cada palavra minha fosse um peso a mais no seu dia já exausto.
— O que é que queres que eu diga, Sofia? Estou a tentar, mas parece que nada do que faço chega — respondeu, baixinho, enquanto passava a mão pela testa, afastando o cabelo castanho que começava a rarear nas têmporas.
O silêncio caiu entre nós, pesado, quase sufocante. O relógio da sala marcava 23h12. Oiço o som do trânsito lá fora, abafado pelas janelas fechadas. A nossa filha, Leonor, dormia no quarto ao lado, alheia à tempestade que se abatia sobre os pais.
Lembro-me de quando tudo era diferente. Quando nos sentámos pela primeira vez neste sofá, ainda cheirava a novo. Rimo-nos, abraçámo-nos, sonhámos juntos. “Este sofá vai ser o palco da nossa vida”, disseste tu, Marco, com aquele sorriso ingénuo que me fez apaixonar por ti. E foi. Foi palco de beijos, de filmes vistos até tarde, de discussões acesas e reconciliações apaixonadas. Mas agora, parecia apenas um lugar onde nos sentávamos para evitar olhar um para o outro.
A minha mãe sempre disse que o casamento era feito de cedências. “Sofia, não penses que a felicidade é um estado permanente. Aprende a aceitar as pequenas coisas.” Mas eu queria mais. Queria sentir-me viva, desejada, importante. Queria que o Marco olhasse para mim como no início, não como se eu fosse apenas mais uma tarefa na sua lista interminável de obrigações.
— Lembras-te de quando viemos viver para aqui? — arrisquei, tentando quebrar o gelo. — Estávamos tão felizes…
Ele suspirou, sem me olhar.
— As coisas mudam, Sofia. Temos uma filha, contas para pagar, trabalho… Não é fácil.
— Não é fácil para ninguém, Marco! Mas parece que já nem tentamos. Tu chegas a casa e só queres ver televisão, eu passo o dia a correr atrás da Leonor, a tratar da casa, do jantar… Quando é que foi a última vez que estivemos juntos, só os dois?
Ele não respondeu. O silêncio dele doía mais do que qualquer palavra. Senti as lágrimas a quererem saltar, mas engoli-as. Não queria mostrar fraqueza. Não queria que ele pensasse que eu era uma daquelas mulheres que só sabem reclamar.
No dia seguinte, acordei cedo. O Marco já tinha saído para o trabalho. Leonor ainda dormia. Sentei-me no sofá, abracei uma almofada e deixei as lágrimas correrem. Senti-me sozinha, perdida. O sofá, outrora símbolo do nosso amor, era agora testemunha da minha solidão.
A rotina tornou-se o nosso maior inimigo. O Marco trabalhava horas a fio no escritório de contabilidade. Eu, depois de perder o emprego na loja de roupa do centro, fiquei em casa com a Leonor. A minha sogra, Dona Teresa, vinha muitas vezes “ajudar”, mas acabava sempre por criticar tudo o que eu fazia. “A sopa está sem sal, Sofia. A Leonor devia usar mais roupa, está frio.”
Às vezes, sentia que não era suficiente para ninguém. Nem para o Marco, nem para a Leonor, nem para mim própria. Comecei a evitar o espelho. O meu corpo já não era o mesmo. As olheiras, as rugas finas ao canto dos olhos, a barriga que nunca voltou ao lugar depois da gravidez. O Marco nunca dizia nada, mas eu via o desinteresse nos seus gestos, na forma como me tocava — ou melhor, na forma como já não me tocava.
Uma noite, depois de deitar a Leonor, sentei-me no sofá com um copo de vinho. O Marco chegou tarde, como de costume. Sentei-me direita, respirei fundo.
— Marco, precisamos de falar.
Ele pousou a mala, tirou o casaco devagar, como se já soubesse o que vinha aí.
— O que foi agora, Sofia?
— Não aguento mais esta distância. Sinto que estamos a perder-nos. Não quero que a Leonor cresça numa casa onde os pais são dois estranhos.
Ele sentou-se ao meu lado, mas parecia estar a quilómetros de distância.
— Achas que eu não sinto o mesmo? Mas o que é que queres que eu faça? Não posso largar o trabalho. Não posso simplesmente fingir que está tudo bem.
— Não quero que finjas. Quero que tentes. Quero que voltes a olhar para mim como antes. Quero que voltes a sentar-te comigo neste sofá e sonhar, como fazíamos antes.
Ele olhou-me, finalmente. Vi nos seus olhos o cansaço, mas também uma tristeza profunda. Talvez ele também sentisse a falta de nós.
— Sofia, eu amo-te. Mas às vezes sinto que já não sei como te mostrar isso.
Chorámos juntos, abraçados no sofá. Pela primeira vez em muito tempo, senti que ainda havia esperança. Mas a vida não é feita só de momentos de reconciliação.
As semanas passaram. Tentámos mudar. Saímos para jantar, fomos ao cinema, deixámos a Leonor com a minha irmã, a Rita. Mas a rotina, como uma maré, voltava sempre a arrastar-nos para longe um do outro. As discussões voltaram, mais frequentes, mais duras.
Um dia, encontrei mensagens no telemóvel do Marco. Não eram comprometedoras, mas eram demasiado íntimas para serem apenas de trabalho. Uma colega, Inês. Ri-se das piadas dela, partilha coisas que já não partilha comigo. Senti o chão a fugir-me dos pés.
— Marco, quem é a Inês? — perguntei, mostrando-lhe o telemóvel.
Ele ficou pálido.
— É só uma colega, Sofia. Não há nada entre nós.
— Então porque é que falas com ela sobre coisas que já não falas comigo?
Ele não respondeu. Levantou-se, saiu de casa. Fiquei sozinha, sentada no sofá, a tremer. A Leonor entrou na sala, com os olhos sonolentos.
— Mamã, estás triste?
Abracei-a com força. Não queria que ela visse a mãe a desmoronar-se, mas não consegui evitar.
Os dias seguintes foram um tormento. O Marco dormia no sofá. Eu no quarto. A casa tornou-se fria, silenciosa. A Dona Teresa apareceu, como sempre, sem avisar.
— O que é que se passa aqui? O Marco está estranho, tu estás pálida. Não me digas que vais estragar tudo por causa de uma parvoíce, Sofia.
— Não é uma parvoíce, Dona Teresa. Eu e o Marco estamos a tentar, mas às vezes não chega.
Ela olhou-me de cima a baixo, com aquele ar de superioridade que sempre me irritou.
— No meu tempo, as mulheres aguentavam. Não havia cá divórcios nem dramas. Pensavas que era tudo um conto de fadas?
Não respondi. Não queria discutir. Mas dentro de mim, uma voz gritava: “Eu não sou como a senhora. Não quero viver uma vida de fachada.”
O Marco e eu tentámos terapia de casal. Falámos, chorámos, gritámos. Houve momentos em que pensei que íamos conseguir. Outros em que só queria fugir. O sofá “Sonho” foi testemunha de tudo: das lágrimas, dos abraços, das noites em que adormecíamos de costas voltadas.
Um dia, sentei-me sozinha no sofá, com a Leonor a brincar no tapete. Olhei para aquele tecido já gasto, as manchas de vinho, as marcas das pequenas mãos da Leonor, os fios puxados pelos gatos. Pensei em tudo o que aquele sofá tinha visto. Os sonhos, as promessas, as desilusões.
O Marco entrou na sala, sentou-se ao meu lado. Ficámos em silêncio, a olhar para a Leonor.
— Sofia, não sei se vamos conseguir. Mas quero tentar. Por nós, por ela.
Olhei para ele, cansada, mas ainda com uma réstia de esperança.
— Também quero tentar, Marco. Mas não quero viver só de tentativas. Quero viver de verdade.
Ele pegou na minha mão. Ficámos ali, juntos, sem palavras. Pela primeira vez em muito tempo, senti que talvez ainda fosse possível reconstruir alguma coisa. Não como antes, mas de outra forma. Mais madura, mais real.
Hoje, escrevo esta história sentada no mesmo sofá. A Leonor já cresceu, o Marco e eu continuamos juntos, mas diferentes. Aprendemos a aceitar as imperfeições, a valorizar os pequenos momentos. O sofá “Sonho” já não é novo, mas é nosso. Carrega as marcas da nossa vida, das nossas lutas, dos nossos recomeços.
Às vezes pergunto-me: será que é possível salvar o amor quando tudo à nossa volta muda? Ou será que o segredo está em aprender a amar de novo, todos os dias, apesar das mudanças? E vocês, o que acham? Já sentiram que o amor se perde nas rotinas do dia a dia?