Nunca deixes uma amiga solteira cruzar o teu limiar
— Não achas estranho ela vir cá tantas vezes? — perguntou o Miguel, com a voz baixa, enquanto fechava a porta da cozinha. O cheiro do café ainda pairava no ar, misturado com o aroma doce do bolo que a Zuzana tinha trazido. Eu olhei para ele, cansada, com o bebé a dormir no meu colo, e tentei não mostrar o turbilhão que me ia na cabeça.
A minha mãe sempre me dizia: “Nunca deixes uma amiga solteira cruzar o teu limiar.” Eu ria-me, achava aquilo antiquado, coisa de gente desconfiada. Mas agora, com a Zuzana a aparecer quase todos os dias, a trazer bolos, a ajudar-me com o pequeno Tomás, a rir-se das piadas do Miguel, comecei a sentir uma inquietação que não sabia nomear.
— Ela só quer ajudar, Miguel. Sabes que não tenho família por perto, e tu trabalhas tanto… — tentei justificar, mas a minha voz soou insegura, até aos meus próprios ouvidos.
O Miguel encolheu os ombros, mas vi nos olhos dele uma sombra que nunca tinha estado ali. E foi aí que a dúvida se instalou. Será que a minha mãe tinha razão? Será que a Zuzana, com aquele sorriso aberto, com aquela energia contagiante, era uma ameaça ao meu lar?
Naquela noite, não consegui dormir. O Tomás chorava, e eu embalava-o no escuro, mas a minha cabeça estava cheia de imagens: a Zuzana a rir-se com o Miguel na sala, a Zuzana a pegar no Tomás como se fosse dela, a Zuzana a olhar para mim com aquele olhar de quem sabe mais do que diz. Lembrei-me de todas as vezes que ela me disse que não queria casar, que gostava da liberdade, que não precisava de ninguém. E se, afinal, ela quisesse aquilo que eu tinha?
No dia seguinte, quando a Zuzana apareceu com mais um bolo e um sorriso, eu já não consegui sorrir de volta. Ela percebeu logo.
— O que se passa, Marta? — perguntou, pousando o bolo na mesa.
— Nada… Só estou cansada — menti, desviando o olhar.
Ela sentou-se ao meu lado, pegou na minha mão.
— Sabes que podes confiar em mim, não sabes?
E foi aí que me apeteceu gritar. Confiar? Como é que se confia quando a dúvida já se instalou? Como é que se confia quando a tua própria mãe te ensinou a desconfiar de tudo e de todos?
Os dias passaram, e a presença da Zuzana tornou-se um peso. O Miguel começou a chegar mais tarde a casa, dizia que tinha mais trabalho. Eu olhava para ele e via-o distante, frio. O Tomás chorava mais, como se sentisse a tensão no ar. E eu, sozinha, sentia-me a enlouquecer.
Uma noite, depois de deitar o Tomás, sentei-me na sala às escuras. O Miguel entrou, largou a pasta no chão.
— O que é que se passa contigo? — perguntou, irritado. — Já nem falas comigo, nem com a Zuzana. Achas que não percebo?
— Percebes o quê? — perguntei, a voz a tremer.
— Que estás a inventar problemas onde não existem. A Zuzana é tua amiga, sempre foi. Agora parece que tens medo dela!
— E se eu tiver? — gritei, finalmente. — E se eu tiver medo de perder tudo? E se a minha mãe tiver razão?
O Miguel olhou para mim como se eu fosse uma estranha.
— A tua mãe vive sozinha há vinte anos, Marta. Achas mesmo que ela sabe o que é melhor para nós?
As palavras dele ficaram a ecoar na minha cabeça. A minha mãe, sozinha, amarga, sempre a desconfiar de tudo. Eu não queria ser como ela. Mas o medo era mais forte.
No dia seguinte, liguei à Zuzana e disse-lhe para não vir cá mais. Disse-lhe que precisava de espaço, que estava cansada. Ela ficou em silêncio do outro lado da linha.
— Se é isso que queres, eu respeito. Mas não te esqueças que sempre estive aqui para ti, mesmo quando mais ninguém estava.
Desliguei, e chorei. Chorei como nunca tinha chorado. O Tomás acordou, e eu abracei-o, como se ele fosse o último pedaço de felicidade que me restava.
Os dias tornaram-se mais longos, mais frios. O Miguel continuava distante, o Tomás chorava mais. Eu sentia-me cada vez mais sozinha. A casa, antes cheia de risos e conversas, agora era um lugar silencioso, onde só se ouvia o som do relógio e o choro do meu filho.
Um dia, a minha mãe ligou.
— Então, já viste que eu tinha razão? — perguntou, com aquele tom de quem sabe tudo.
— Não sei, mãe. Só sei que agora estou sozinha. E não era isso que eu queria.
Ela suspirou.
— Às vezes, é melhor estar sozinha do que mal acompanhada.
Desliguei sem responder. Olhei para o Tomás, que brincava no tapete, alheio a tudo. E pensei: será que vale a pena sacrificar uma amizade por medo? Será que a solidão é o preço da segurança?
O tempo passou. O Miguel e eu fomos-nos afastando cada vez mais. Um dia, ele fez as malas e saiu de casa. Disse que precisava de espaço, que já não aguentava a tensão. Fiquei sozinha com o Tomás, a casa ainda mais vazia.
A Zuzana nunca mais apareceu. Às vezes vejo-a na rua, de longe, com aquele sorriso triste. Penso em ligar-lhe, pedir desculpa, mas o orgulho e o medo impedem-me.
Agora, todas as noites, sento-me na sala às escuras e penso na frase da minha mãe. Será que ela tinha razão? Ou será que fui eu que destruí tudo com o meu medo?
E vocês, o que fariam no meu lugar? Até onde devemos ir para proteger o que é nosso? Será que vale a pena viver com medo, ou devemos confiar mais em quem amamos?