Este Não É o Homem Que Casei: O Desgosto Crescente de Vicente por Mim
— Não percebo como consegues deixar a casa neste estado, Alexa! — gritou o Vicente, atirando as chaves para cima da mesa da cozinha. O som metálico ecoou pela divisão, misturando-se com o choro dos gémeos, Aria e Jaime, que brincavam no tapete da sala.
Senti o peito apertar. Tinha acabado de chegar do trabalho, depois de um dia exaustivo no hospital, e ainda nem tinha tido tempo de tirar o casaco. Olhei para ele, tentando encontrar no rosto do homem à minha frente aquele sorriso que me conquistou há dez anos atrás. Mas só vi frustração.
— Vicente, por favor… — tentei começar, mas ele interrompeu-me.
— Não me venhas com desculpas. A minha mãe tinha razão: tu não sabes organizar nada. Nem a tua vida, nem a nossa casa.
Aquelas palavras doeram mais do que qualquer cansaço físico. A mãe dele, Dona Lurdes, nunca gostou verdadeiramente de mim. Desde o início do nosso namoro, fazia questão de me lembrar que eu não era boa o suficiente para o filho dela. No início, Vicente defendia-me. Agora, parecia repetir cada frase dela.
Lembro-me do dia em que nos conhecemos na festa de São João em Braga. Ele era divertido, carismático, fazia-me sentir especial. Quando engravidei dos gémeos, foi um susto — mas também uma alegria imensa. Jurámos que seríamos uma equipa. Mas agora… agora éramos adversários.
As discussões tornaram-se rotina. Tudo era motivo: a roupa por passar, o jantar atrasado, os brinquedos espalhados. Até a forma como educava os nossos filhos era criticada.
— Não devias deixar a Aria comer tanto chocolate! — dizia ele, enquanto eu tentava convencê-la a comer sopa.
— O Jaime precisa de disciplina, Alexa. És demasiado mole com ele! — atirava, quando eu tentava acalmar uma birra.
No início tentei conversar. Sugerir terapia de casal. Mas Vicente recusava sempre:
— Não preciso de psicólogos para saber que isto não está a funcionar porque tu não fazes a tua parte.
Comecei a duvidar de mim própria. Será que era mesmo má mãe? Má esposa? Os meus amigos diziam que não, mas a voz dele — e da Dona Lurdes — era mais forte.
A sogra vinha cá quase todos os dias. Trazia bolos e críticas disfarçadas de conselhos:
— No meu tempo, as mulheres sabiam cuidar da casa e dos filhos sem se queixarem tanto…
Eu sorria, por educação. Por dentro, gritava.
Uma noite, depois de adormecer os gémeos, sentei-me no sofá e chorei baixinho. Vicente entrou na sala e ficou a olhar para mim com desdém.
— Agora vais fazer-te de vítima? — perguntou ele.
— Eu só queria… só queria que fosses como antes — sussurrei.
Ele riu-se, amargo:
— Pois, mas as pessoas mudam.
E mudou mesmo. Começou a sair mais vezes à noite com amigos do trabalho. Chegava tarde, cheirando a cerveja e perfume estranho. Quando lhe perguntava onde tinha estado, respondia:
— Preciso de respirar longe deste ambiente sufocante.
Os gémeos começaram a perceber a tensão. A Aria fazia perguntas:
— Mãe, porque é que o pai está sempre zangado?
O Jaime chorava mais vezes à noite. Eu sentia-me sozinha mesmo rodeada deles.
No Natal desse ano, Dona Lurdes fez questão de organizar tudo em casa dela. Senti-me uma estranha na família do meu próprio marido. Vicente mal me dirigiu a palavra durante o jantar. Quando voltámos para casa, discutimos outra vez.
— Não aguento mais isto! — gritei eu.
Ele olhou-me nos olhos e disse:
— Então vai-te embora.
Fiquei paralisada. Era isso que ele queria? Que eu desistisse?
Passei os dias seguintes em piloto automático. Ia trabalhar, cuidava dos gémeos, fingia normalidade. Mas por dentro estava a desmoronar-me.
Uma tarde, enquanto arrumava os brinquedos na sala, encontrei um desenho da Aria: quatro bonecos de mãos dadas, mas um deles estava afastado dos outros três. No canto do papel lia-se “Mamã triste”.
Foi aí que percebi: não podia continuar assim. Não só por mim, mas pelos meus filhos.
Procurei ajuda psicológica sem lhe contar. Comecei a reconstruir-me aos poucos. Falei com uma advogada sobre os meus direitos. Falei com amigas que já tinham passado por separações difíceis.
Numa noite chuvosa de março, sentei-me com Vicente na cozinha e disse-lhe:
— Não quero viver assim. Ou procuramos ajuda juntos ou isto acaba aqui.
Ele ficou em silêncio durante muito tempo. Depois levantou-se e saiu de casa sem dizer nada.
Na manhã seguinte voltou para buscar algumas roupas e disse apenas:
— Fica com as crianças esta semana. Depois logo se vê.
Chorei tudo o que tinha para chorar nesse dia. Mas também senti alívio. Finalmente podia respirar sem medo das críticas constantes.
Os meses seguintes foram duros. A Dona Lurdes ligava-me todos os dias para saber das crianças — e para me lembrar que era uma fracassada.
— O Vicente está destroçado por tua causa — dizia ela.
Mas eu já não me deixava abalar tanto. Os gémeos começaram a sorrir mais em casa. Eu voltei a rir com eles.
Vicente tentou voltar algumas vezes, mas nunca pediu desculpa verdadeiramente. Dizia apenas:
— Podemos tentar outra vez… pelos miúdos.
Mas eu sabia que não queria voltar àquela prisão emocional.
Hoje sou mãe solteira dos meus gémeos maravilhosos. Trabalho muito, mas sinto-me finalmente em paz comigo mesma. Ainda dói pensar no homem por quem me apaixonei e no que ele se tornou.
Às vezes pergunto-me: será que podia ter feito algo diferente? Ou será que há relações destinadas a acabar para nos salvarmos a nós próprios?
E vocês? Já sentiram que perderam alguém — ou perderam-se de vocês mesmos — numa relação?