O Sacrifício de António: Entre o Amor e a Ingratidão

— Não me venhas pedir mais dinheiro, Inês! — gritou o António, a voz rouca de cansaço, enquanto eu, sentada à mesa da cozinha, tentava não me intrometer. A minha sobrinha, de vinte e poucos anos, olhou para ele com aquele ar de quem já não tem respeito, só exigência.

— Pai, não é pedir, é um adiantamento! Preciso para pagar a renda, senão vou para a rua! — respondeu ela, cruzando os braços, como se a culpa fosse dele.

O António passou a mão pela testa, os olhos fundos, as rugas mais vincadas do que nunca. Eu sabia que ele não tinha dinheiro. Reformado há pouco, depois de uma vida inteira a trabalhar nas obras, o pouco que recebia mal dava para as contas e para os medicamentos. Mas nunca conseguia dizer que não aos filhos. Sempre foi assim, desde que a mulher dele, a Teresa, morreu de repente, há dez anos. Ficou sozinho com dois filhos adolescentes, a Inês e o Miguel, e nunca mais teve descanso.

Lembro-me de o ver chegar a casa, sujo de cimento, os joelhos a doer, mas sempre com um sorriso para os miúdos. Fazia-lhes o jantar, ajudava nos trabalhos de casa, ia às reuniões da escola. Quando a Inês quis estudar fora, ele fez horas extra, trabalhou aos sábados, vendeu o carro velho. Quando o Miguel foi apanhado com más companhias, foi o António que o tirou do buraco, que lhe arranjou emprego na oficina do primo João.

Mas agora, sentado à mesa, parecia um homem derrotado. A Inês saiu a bater a porta, sem um obrigado, sem um olhar para trás. O António ficou a olhar para o vazio, os olhos marejados. Eu tentei animá-lo, mas ele só abanou a cabeça.

— Eles não percebem, Maria. Não percebem o que custa dar tudo, e depois sentir que não somos nada para eles.

Eu não sabia o que dizer. Também eu tinha filhos, também eu sentia, às vezes, aquela distância, aquela ingratidão. Mas com o António era diferente. Ele tinha-se anulado por eles. Nunca pensou em si, nunca tirou férias, nunca comprou nada para ele. Tudo era para os filhos.

O tempo foi passando. O António começou a adoecer. Primeiro foi a tosse, depois as dores no peito. O médico disse que era grave, que precisava de tratamento. Eu tentei falar com a Inês e com o Miguel, mas estavam sempre ocupados. A Inês dizia que tinha muito trabalho, o Miguel não atendia o telefone. Quando finalmente consegui falar com ele, respondeu-me:

— A tia sabe como é, a vida não está fácil. O pai sempre se safou, vai safar-se outra vez.

Fiquei sem palavras. O António precisava deles, precisava de companhia, de ajuda para ir ao hospital, para tomar os medicamentos. Eu fazia o que podia, mas também tinha a minha vida, o meu marido, os meus netos. Sentia-me impotente.

Uma noite, o António ligou-me a chorar. Não conseguia respirar, estava sozinho em casa. Fui a correr, chamei a ambulância. No hospital, disseram-me que tinha sido por pouco. Fiquei com ele, dei-lhe a mão, tentei animá-lo. Mas ele só repetia:

— Eles não vêm, Maria. Não vêm.

Os dias no hospital foram longos. Eu ia todos os dias, levava-lhe sopa, fruta, livros. Os filhos não apareceram. Nem uma chamada, nem uma mensagem. Os enfermeiros perguntavam-me se não tinha família. Eu mentia, dizia que estavam longe, que não podiam vir. Mas a verdade era outra. A verdade era que tinham esquecido o pai.

Quando o António voltou para casa, estava mais fraco, mais magro. Eu continuei a ajudar, mas sentia que ele estava a desistir. Um dia, ao fim da tarde, sentámo-nos na varanda. Ele olhou para o céu, suspirou.

— Maria, onde é que eu errei? Dei tudo o que tinha, tudo. E agora, nem um telefonema. Será que fui demasiado bom? Será que devia ter sido mais duro?

Eu não sabia responder. Talvez tivesse sido demasiado protetor, talvez tivesse facilitado demais. Mas quem sou eu para julgar? Cada um faz o melhor que sabe.

O tempo foi passando. O António foi piorando. Um dia, o médico disse-me que o fim estava próximo. Liguei à Inês, ao Miguel. Disse-lhes que era agora ou nunca. A Inês apareceu, finalmente, mas só ficou dez minutos. O Miguel nem apareceu. O António já mal falava, mas quando viu a filha, sorriu. Ela chorou, pediu desculpa, mas era tarde demais.

No funeral, estavam poucos. Eu, o meu marido, a Inês, alguns vizinhos. O Miguel chegou atrasado, de óculos escuros, não falou com ninguém. Depois do enterro, a Inês veio ter comigo.

— Tia, eu não sei o que fazer agora. Sinto-me tão vazia. O pai deu-me tudo, e eu… — a voz dela falhou.

Abracei-a, mas por dentro sentia uma raiva surda. Porque é que só damos valor quando já não há tempo? Porque é que só percebemos o amor quando o perdemos?

Agora, sentada nesta casa vazia, olho para as fotografias do António com os filhos pequenos. Vejo o sorriso dele, a esperança nos olhos. E penso: onde falhámos? Como é que uma família se perde assim? Será que a sociedade nos empurra para o egoísmo, para o esquecimento? Ou será que, no fundo, cada um só pensa em si?

Às vezes pergunto-me: se fosse eu, será que os meus filhos fariam o mesmo? Será que o amor de um pai, de uma mãe, é sempre pago com ingratidão? Ou ainda há esperança para as famílias de hoje?

E vocês, o que acham? O que é que se pode fazer para não deixarmos que isto aconteça outra vez?